Qual o limite das Data Limites?

Ou Porque Kardec rejeitava dez verdades para não aceitar uma mentira.

Apesar do conhecimento popular especulatório ter lá os seus acertos, ele é constantemente conhecido pelos seus clamorosos erros. E esse reconhecimento negativo é ainda maior no que tange às profecias que volta e meia circulam entre os meios popularescos. E se o Apocalipse do ano 1000 e do ano 2000, as profecias de Nostradamus, o calendário Maia e as profecias de Baba Vanga já tiveram seu período de criação ápice e decadência observados por toda a população mundial, agora chega a hora de uma profecia criada no seio do espiritismo brasileiro em 2014 com o documentário “Data Limite Segundo Chico Xavier”.

O mencionado documentário coloca na conta do famoso médium mineiro a afirmação de uma profecia a respeito da possibilidade de contatos com seres extraterrestres (sejam eles espirituais ou não) no ano de 2019, abrindo especulação para uma possível intervenção de forma inegável de forças que poderíamos chamar de não-humanas. O documentário pode ser conferido na integra no Vídeo 1.

Vídeo 1: Documentário Data Limite Segundo Chico Xavier

A primeira vez que me falaram sobre este filme, eu fiquei com um pé atrás, e não é por menos, com todo um histórico de profecias erradas e junto à advertência de Kardec utilizada aqui como subtítulo, todo espírita teria um pé atrás com profecias à respeito de Chico Xavier (Uma curiosidade, a Baba Vanga mencionada mais acima, fez a previsão de que o ultimo presidente eleito dos EUA seria um afro-descendente, o Obama. Como aparentemente o Trump foi eleito como o 45º Presidente, resta saber se a profecia dela dizia respeito à eleição ou a quando o Obama se mudasse da Casa Branca. Segundo ela, depois disso haverá uma divisão entre Norte e Sul. Para todos os critérios, a profecia já está falha, mas, se no dia 20 de janeiro o Donald não sentar na cadeira, acho que ela terá o mérito. Mais informações podem ser obtidas neste link: https://www.yahoo.com/news/heres-what-baba-vanga-predicted-for-2016-and-the-192833607.html?ref=gs). Eventualmente, porém, eu assisti o vídeo e, diferente do Codificador que se convenceu das mesas girantes mesmo sendo um cético sobre elas no momento inicial, eu permaneci no ceticismo. Aliás, assistir o vídeo apenas fortaleceu o ceticismo inicial!!

Cabe aqui mencionar que estou falando do ceticismo em seu sentido denotativo. Conforme a Wikipedia:

Cepticismo ou ceticismo é qualquer atitude de questionamento para o conhecimento, fatos, opiniões ou crenças estabelecidas como fatos.

Desta forma, o que estou fazendo é apenas abrir questionamentos para aquilo que o documentário estabeleceu como fatos. Apesar de muitos espíritas terem desenvolvido um grande preconceito para os que se consideram céticos, apenas com o benefício da dúvida, os membros do espiritismo poderão evitar que a mesma se torne apenas mais uma religião desmentida pela ciência. E como re-afirmado constantemente, a ciência, filosofia e religião são um tripé. Se um dos pés estiver sem base, o que quer que seja que este tripé esteja segurando irá desabar.

Tendo isso em mente, eu assisti o vídeo com um pé atrás sim, mas com a cabeça aberta à aceitar quaisquer evidências que pudessem ser comprovadas. Além do mais, o meio espiritualista brasileiro conta com diversas teorias pseudo-ciências que se utilizam de supostas comprovações científicas e grande parte delas sequer são aceitas em revistas científicas e os motivos para isso são vários. Para não me estender aqui, deixo o Vídeo 2 do canal Primata Falante que explica muito melhor que eu (por saber mais que eu, obviamente).

Vídeo 2: Vídeo do Primata Falante a respeito de pseudo-ciência e espiritualidade

O texto completo pode ser visto no link

mas, resumindo, poderíamos estabelecer alguns pontos fundamentais

  1. Com a ida do homem à Lua, foi aplicada uma moratória sobre os habitantes do planeta Terra. Essa moratória de cinquenta anos se encerra no ano de 2019.
  2. Caso a humanidade não se lance a uma guerra de extermínio até a Data Limite, o homem experimentará os contatos com culturas alienígenas de forma inequívoca e encontrará a solução de seus problemas.
  3. Caso opte pela guerra de extermínio, o homem sofrerá interferência igualmente inequívoca de culturas alienígenas, porém de forma a limitar a liberdade humana para nos conduzir a um período de evolução. Antes disso, porém, haverá uma série de catástrofes que acabarão por reduzir a população humana, levando, inclusive à ocupação militar do Brasil por países do Hemisfério Norte, dividindo o Brasil (Mas não haverá o #SampAdeus).

A base para afirmação desta teoria se daria pela afirmação de Geraldo Lemos Neto, que era uma pessoa próxima à Chico Xavier e pela afirmação do próprio Chico no Pinga-Fogo de 71. O documentário não se furta a exibir os trechos onde o Chico teria afirmado tal profecia que é continuamente repetida por Geraldo Lemos desde 2011 (ou antes disso, segundo o próprio). Sem querer desmerecer a nenhum dos envolvidos no projeto, realizamos, da nossa parte, uma pequena pesquisa a fim de validar alguns pontos, o que aliás deveria ser a obrigação de cada um que prefira recusar 10 verdades não comprováveis para não aceitar uma mentira. Os pontos principais são:

I. Chico Xavier teria realmente realizado essa profecia?

Ao assistir o documentário, é comum sairmos com a sensação de que Chico realmente realizou a dita profecia ao vivo, na frente de 75% dos televisores brasileiros da época e incontável auditório. Afinal, nós ouvimos o próprio Chico mencionar isso não é? Mas aqui temos que saber separar o joio do trigo. Se queremos analisar o que o médium mineiro disse, precisamos retirar tudo aquilo que não faz parte da sua fala, e isso inclui todo o restante do documentário. Como é um trabalho cinematográfico, obviamente, os autores do mesmo se preocuparam em como apresentar a mensagem em sua forma mais convincente possível, e, portanto, recortes, inclusões e efeitos especiais exercem um efeito semelhante ao de um ilusionista que balança uma das mãos para que os espectadores não observem o coelho entrando na cartola. Desta forma, retiramos o mágico e o coelho e ficamos com a cartola, a fim de descobrir se ela possui ou não um fundo falso.

Portanto, remontamos aqui o quebra-cabeça realizado no filme com a resposta do discípulo de Emmanuel, a parte de todo o joio. A transcrição completa do Pinga-Fogo pode ser conferida aqui.

Saulo Gomes — O Luiz Lopes, que é o nosso companheiro da TV Globo, formula esta pergunta: Nossa humanidade assiste neste momento a mais um lance dramático da corrida espacial “Apoio 15” se encaminha para a Lua. Acreditam os mestres espirituais de Chico Xavier que ainda em nossa atual civilização o homem poderá entrar em contato com civilizações de outros planetas?
Chico Xavier — Estamos subordinando a resposta ao mesmo critério com que foi estruturada a informação para a nossa estimada entrevistadora que falou sobre a nova era. Se não entrarmos numa guerra de extermínio nos próximos 50 anos, então nós podemos esperar realizações extraordinárias da ciência humana partindo da Lua. Então diz o nosso Emmanuel, que está presente, que quando Cristóvão Colombo perambulava pelas cortes europeias, pedindo socorro para descobrir um caminho mais fácil para as índias, muita gente considerou o programa dele como absolutamente inútil para a humanidade, que aquilo era uma despesa absolutamente inócua e que iria pesar demasiadamente no orçamento de qualquer povo, até que ele conseguisse o apoio de Fernando e Isabel, os então soberanos de Castela. Mas nós hoje sabemos, depois de quase 5 séculos, qual a importância do feito. Então nós não podemos, também, acusar os nossos irmãos que estão se dirigindo à Lua para pesquisas que devem ser consideradas da máxima importância para o nosso progresso futuro, porque as despesas efetuadas com isso serão naturalmente compensadas, talvez com a tranquilidade para uma sociedade mais pacífica na Terra, porque se não entrarmos, por exemplo, num conflito de proporções imensas, então na Lua é possível que o homem construa as cidades de vidro, as cidades estufas, onde cientistas possam estabelecer pontos de apoio para observação da nossa Galáxia. Essas cidades não são sonhos da Ciência, essas cidades, naturalmente com muito sacrifício da humanidade terrestre, podem ser feitas e provavelmente — vamos dizer — vai se obter azoto e oxigênio e usinas de alumínio e formações de vidro e matéria plástica na própria Lua para a construção desses redutos, produtos da ciência terrestre e provavelmente a água fornecida pelo próprio solo lunar. Então, teremos, quem sabe, a possibilidade de entrar em contato com outras comunidades da nossa Galáxia. Então vamos, definitivamente, encerrar o período bélico na evolução dos povos terrestres, porque nós vamos compreender que fazemos parte de uma só família universal, que não somos o único mundo criado por Deus. O próprio Jesus a quem reverenciamos como Nosso Senhor e mestre, disse: “Há muitas moradas na casa de meu pai.” Portanto, nós precisamos prestigiar a paz dos povos, a tranquilidade de todos com o respeito de todos, com a veneração máxima pela Ciência para que nós possamos auferir esses benefícios num futuro talvez mais próximo do que remoto, se nós fizermos por merecer.

A primeira coisa que ressalta aos olhos é a diferença entre o tamanho da resposta do Chico em relação ao que foi exposto como chamada inicial do documentário. Obviamente, os apoiadores do Data Limite (Me vêm a cabeça, a necessidade de um nome para identificá-los, algo como limitistas ou datistas, mas quero evitar para não forçar uma divisão de grupo que não deve existir) dirão que não cabe ao vídeo a reprodução completa da resposta, por questão de espaço ou direitos autorais. E podemos concordar com isso. Porém, ao reler a resposta fora do vídeo vemos uma dessas partes que ficaram de fora. Um singelo disclaimer posto pelo entrevistado:

Estamos subordinando a resposta ao mesmo critério com que foi estruturada a informação para a nossa estimada entrevistadora que falou sobre a nova era.

Este pequeno apêndice à resposta do Chico, é na verdade o pulmão da resposta. Chico já havia respondido à outra pergunta de mesmo teor. Portanto, para tudo aquilo que Saulo Gomes perguntou sobre civilizações alienígenas, a resposta é semelhante àquela oferecida à entrevistadora (Hele Alves)

Hele Alves — Eu queria saber agora o seguinte: Os Espíritas dizem que os renascimentos sucessivos da criatura humana têm por objetivo a sua evolução. Outras correntes espiritualistas como os teosofistas, os messiânicos, também dizem que nós estamos no limiar de uma era de grande beleza, a era de Aquário, na qual a humanidade será muito feliz. Eu gostaria de perguntar ao senhor o seguinte: Se temos mais de uma dezena de séculos de evolução, se estamos no limiar de uma era de encontro da criatura humana consigo própria, como que o senhor explica as violências do mundo atual como a guerra do Vietnã, a violência da sociedade de consumo. Isso a nosso ver, não representa uma grande evolução da humanidade.
Chico Xavier — Esses fenômenos todos — diz o nosso Emmanuel que está presente — caracterizam mesmo o período de transformação em que nós nos encontramos. Diz ele: O nosso companheiro materialista dirá: Natureza. Mas para nós os religiosos, Natureza é sinônimo de manifestação de Deus. Então Deus cria a Natureza, Deus cria a vida, mas o homem, os homens ou as mulheres do planeta, são filhos de Deus e podem modificar a criação de Deus. Nós nos encontramos no limiar de uma era extraordinária, se nos mostrarmos capacitados coletivamente a recebê-­la com a dignidade devida. Se os países mais cultos do globo puderem suportar a pressão dos seus próprios problemas, sem entrar em choques destrutivos, como, por exemplo: guerra de extermínio, que deixará consequências imprevisíveis para nós todos no planeta, então veremos uma era extraordinariamente maravilhosa para o homem, porque a própria automação — diz ele — nos está dizendo que vamos ser aliviados ou quase que aposentados do trabalho mais rude no trato com o planeta, para a educação da nossa vida mental, através de informações sobre o Universo com proveito enorme, proveito incalculável para benefício da humanidade. Mas isso terá um preço. Será o preço da paz. Se pudermos nos suportar uns aos outros, amar uns aos outros, seguindo os preceitos de Jesus, até que essa era prevaleça, provavelmente no próximo milênio, não sabemos se no princípio, se nos meados ou se no fim. O terceiro milênio nos promete maravilhas, mas se o homem, filho e herdeiro de Deus, também se mostrar digno dessas concessões. Senão vamos aguentar nós todos, talvez com as estacas zero ou quase zero para recomeçar tudo de novo.

Essa resposta é bem parecida com a de Saulo Gomes, realmente. Porém, um detalhe ao final chama a atenção novamente:

Mas isso terá um preço. Será o preço da paz. Se pudermos nos suportar uns aos outros, amar uns aos outros, seguindo os preceitos de Jesus, até que essa era prevaleça, provavelmente no próximo milênio, não sabemos se no princípio, se nos meados ou se no fim.

Agora ficou confuso. O mesmo Chico que afirmou que em 2019 haverá uma revolução, há menos de algumas horas afirma que não sabe se isso se dará no início, fim ou meio do MILÊNIO. Acho que podemos considerar uma grande margem de erro para uma profecia. Se incluirmos esse novo trecho, teremos um Chico Xavier muito parecido com o Nostradamus da cultura popular (não o original) ao afirmar que “a 2000 chegarás, mas de 2999 não passarás”. Ou então, deveríamos escolher qual das duas respostas teria “mais validade”. Ou, como uma terceira possibilidade, Chico não teria realizado uma profecia, mas feito uma projeção.

Se trocarmos o primeiro termo mais religioso e de caráter mais nefasto, para o segundo, de características mais humanísticas, podemos fazer a releitura das duas respostas:

  • Quando a jornalista Hele Alves questiona sobre a era de Aquário, o médium, mencionando Emmanuel, diz que, se a humanidade conseguir encontrar a paz, a automação e os avanços da ciência garantirão maravilhas ao homem. Caso contrário, o homem acabará regredindo em sua evolução. Tal afirmação encontra consonância com diversos defensores da paz nos tempos de Guerra Fria, que temendo uma Nova Guerra Nuclear, dizem que não sabemos quais as armas da III Guerra Mundial, mas com certeza, as armas da IV serão paus e pedras.
  • Ao Saulo Gomes, Chico afirma que se nos próximos 50 anos (contando de 71! Afinal, se o mesmo não especificou, a contagem deve ser realizada da data da resposta que foi dada em 71. Assim, a Data Limite deveria ser 2021!!) não tivermos uma guerra de extermínio, poderemos esperar realizações extraordinárias da CIÊNCIA HUMANA. Com esse avanço da ciência humana, posteriormente acabaríamos por encontrar vida em outros planetas.

A diferença primordial entre hipótese de uma profecia e a hipótese de projeção é que, enquanto a primeira só pode ser verificada por meio do Geraldo Lemos, a segunda é facilmente encontrada pelo bom senso. Seguindo o princípio da Navalha de Occam, a segunda é mais provável que a primeira.

Mas a pergunta que fica, ainda neste primeiro tópico é: Mas porque parece fazer sentido a hipótese de uma profecia? A resposta para isso é o viés confirmatório. Conforme a Wikipedia mais uma vez:

Viés de confirmação, também chamado de viés confirmatório ou de tendência de confirmação, é a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais. É um tipo de viés cognitivo e um erro de raciocínio indutivo. As pessoas demonstram esse viés quando reúnem ou se lembram de informações de forma seletiva, ou quando as interpretam de forma tendenciosa. Tal efeito é mais forte em questões de forte carga emocional e em crenças profundamente arraigadas. As pessoas também tendem a interpretar evidências ambíguas de forma a sustentar suas posições já existentes. Os conceitos de pesquisa, interpretação e memória tendenciosas foram propostos para explicar a polarização de atitudes (quando uma divergência se torna mais extrema ainda que as diferentes partes sejam expostas à mesma evidência), as crenças persistentes (quando crenças persistem mesmo após suas evidências serem demonstradas falsas), o efeito irracional de primariedade (uma maior confiança em informações encontradas antes de outras em uma série) e a correlação ilusória (quando falsas associações entre dois eventos ou situações são identificadas).

Como a primeira vez que o documentário exibe uma cena do Pinga-Fogo é em sequência a uma entrevista onde o Geraldo Lemos afirma que o Chico realizou a profecia, e como o documentário se preocupou em apresentar fotos do Geraldo e do Chico, ficamos enviesados e aceitamos a profecia como dita pelo próprio médium. Inclusive, ao colocar acréscimos à fala do entrevistado, o documentário comete também a falácia da composição, pois o fato do Chico ter indicado uma data, não se segue que ele tenha feita a profecia afirmada.

Concluímos, portanto, que Chico Xavier não realizou a profecia anunciada no documentário durante o Pinga-Fogo de 71 e, portanto, a única base para argumentação se Chico Xavier a fez ou não é aquilo que Geraldo Lemos afirma.

Neste ponto, poderíamos dar por encerrado o nosso trabalho, porém, identificamos outro ponto cuja necessidade de melhor reflexão se faz e que serão trabalhados nas próximas partes: O que Divaldo Franco realmente disse no vídeo e qual a opinião de Kardec sobre o Data Limite.

Até mais e obrigado pelos peixes.