Sons


I

Qual é o som de um disparo de revolver?

BUM?

BANG?

POW?

Foi o que Nina ouviu por por trás da porta que dava para o banheiro de seu apartamento. Eliana não andava de bem com a vida, não aceitava as — como ela chamava — “bobagens do mundo”, e vivia com a sensação de estar sendo perseguida. Talvez alguém de fato a perseguisse. Desistiu, porém, ou, como é de se supor, teve de desistir, pois as persecuções cessaram do outro lado da porta do banheiro.

II

Lucas Mariano ouviu aquilo enquanto lavava a louça. 97 quilos, aproximadamente, no ar durante os poucos segundos que configuram o intervalo entre o 12º andar e o chão. Na verdade Lucas Mariano não ouviu o som da queda, mas do vento na cortina da janela da casa que, aliás, dava para uma maravilhosa vista do Cerrado. Alguém havia se jogado dela, numa fração de segundos, entre um copo e um prato.

A porta para o apartamento permaneceu aberta enquanto os agentes da lei o entrevistavam. Com certeza Lucas Mariano estava envolvido na vertigem de alguém, mas não de seu apartamento. Ele jurava, ainda jura, que morava sozinho.

III

Alguns choros de criança acordaram Dona Everalda. O som era o mesmo que fazia sua filha, que não chegou aos 11 meses. Quanto tempo, pensou Dona Everalda; já fazia quarenta e nove anos. Ficou a ouvir aqueles choros. Temeu que fossem os espíritos da casa. Mas, antes de voltar a dormir — horas depois — descobriu que eram os gatos.

IV

No dia 15 de Setembro de 1989, Régis ouviu uma notícia escabrosa. O tempo fez com que o conteúdo de tal informe fosse perdido.

No dia 16 de Setembro de 1989 Régis começou a fazer suas malas para que no dia 17 de Setembro de 1989 sumisse do mundo sem deixar vestígios.

No dia 30 de Novembro de 1990, o apartamento abandonado por Régis foi ocupado por um novo morador.

No dia 12 de Dezembro de 1990, as últimas coisas de Régis foram depositadas na lixeira do edifício; nelas contavam: uma lista telefônica, algumas fotos antigas, uma nota de geladeira e um aquário, que antes de ser jogado fora, funcionava de cemitério para alguns peixinhos.

Régis abandonou os peixinhos.

V

O som do livro ao tocar o chão chamou a atenção de Leonardo. O rapaz abaixou-se para pega-lo. Com o livro em mãos, notou haver nele uma foto.

26 anos depois, descobriu serem aqueles os da foto seus pais, mas nunca chegou a descobrir quem eram aqueles que o haviam criado.

VI

Jorginho gritava o mais alto que podia. Gritou por três dias, mas o som que chegava à superfície era nulo.

Seus pais levaram 48 dias e 2 horas para encontrá-lo, já sem nenhum som.

VII

Os vultos, para Aninha, sempre emitiam sons esquisitos. Isso desde a infância, quando dizia à mãe dela que eles faziam um zunzunzunzun a todo momento. Depois do seu décimo quarto aniversário Aninha deixou de ouvi-los. Hoje, sua filha Amélia jura com os dois pés gordinhos bem juntos: o som que eles fazem é plimplimplim.

VIII

Aquele som que José ouviu, uma vez, antes de abrir os portões de casa, ele já o sabia: era a voz de Deus.

Passou seus próximos anos dividindo seu tempo entre as pregações — que depois desse dia começara a fazer — seu trabalho e horas parado na frente do mesmo portão de casa, esperando.

Para o senhor José, a voz de Deus só surgiu uma vez.

IX

À revelia de todos os meus hábitos, decidi tomar café em casa ontem. Foi naquele momento que eu o ouvi. Ele aparentemente não me notou enquanto deslizava a mão pelos móveis da minha sala. Fui para a despensa e fiquei lá até não ouvir mais nada. Horas depois liguei para a polícia.

Recebi os policiais que disseram não haver sinais de arrombamento. Passei por paranoico. Despachei os homens e prostrei-me no sofá. Na mesinha de centro havia um recadinho:

Me desculpa por te perseguir, viu? É que te acho um pedacinho do céu.

Ass: Vivi

Esperei a Vivi no dia seguinte, mas ela não apareceu.