Inveja — pão amargo nosso de cada dia

“Ora, Iaweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. Mas não se agradou de Caim e de sua oferenda, e Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido […] Entretanto Caim disse a seu irmão Abel: ‘Saiamos’. E, como estavam no campo, Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou’. (Gn 4. 4b-5, 8 BJ)

Para alguns pensadores contemporâneos — e concordo com eles — vivemos na Era da Mentira”. Mesmo não lançando mão direta deste termo, com diversos modos falam sobre um tempo de superficialidade, ausência e engano. Não a toa, em 2016, a importante editora do dicionário britânico Oxford elegeu como a palavra do ano pós-verdade”. Ela dá significado à redução da importância à objetividade e realidade dos fatos, tendo as emoções e a crença pessoal como seus apoios. Exemplo bobo e próximo é a história encontrada na lateral das caixas de suco da empresa DoBem. Nelas encontramos contos apelativos onde agricultores “pé no chão” — termo meu — forneceriam as frutas para a empresa de modo responsável, amistoso e romantique. Aparentemente, a realidade não é tão romanesca e a DoBem parece utilizar esse recurso para ilustrar um “valor do bem”, tornar, para o consumidor, a empresa tão quista por sua alta bondade que, ao ser visto portando uma caixinha destas, ele se sentirá “do benzinho”, e invejado.

Toda mentira parte de nós e é também sobre nós — mesmo que conte de outros. Quando se passa um bom tempo da vida lendo dos autores clássicos aos contemporâneos, dos diferentes saberes assim como da literatura, observando as artes plásticas e acompanhando a dramaturgia, não é raro chegar à conclusão que, no fim, tudo se trata da mesma coisa, não importando a época nem a geografia do que foi produzido. Pondo à parte as escamas culturais, é do mesmo humano que tudo se trata. Considerando aqui, por conta de nosso tema, os chamados na tradição católica Sete Pecados Capitais, é do humano guloso, irado, avarento, orgulhoso, lascivo, mentiroso e invejoso que tudo fala em sua base. Os desdobramentos disto formam as nuances das histórias. O Homem é o mesmo. Sua condição não é alterada pelas novas imagens de si que são vendidas pelo marketing acadêmico e/ou midiático.

Tais características são essencialmente humanas, e malignas também, pela potencialidade que reservam para a bestialização do ser.

No que chamo aqui de “Era da Mentira”, é sintomática “a negação de toda dimensão sombria em nosso ser”, segundo Luiz Felipe Pondé em sua coluna na Folha de S. Paulo (08/05/2017). Para nós, como canta Los Hermanos, todo o amor do Mundo, para eles o outro lado. É no Outro que reside todo o mal, é o Outro que impede não só a minha felicidade, harmonia e prosperidade, mas também da geração atual e vindoura. É esse o hino daqueles que nesta Era dão corpo ao Puritanismo secular — porquê sem Deus, ao menos O judaico-cristão — e convertem os Pecados Capitais em modos de ser, quando não em direitos. Todos, menos a inveja. Sobre esta, o historiador Leandro Karnal, em seu livro “Pecar e Perdoar”, parece ter acertado ao dizer que ela “é um pecado envergonhado”.

S. Freud, em seu texto “Os Chistes e Sua Relação Com o Inconsciente” expôs a ideia de que, a grosso modo, nas “brincadeirinhas” e piadas, naquilo que damos um tom cômico para aliviar a tensão certa que seria gerada pelo o que falamos ou fizemos, acabamos por nos denunciar, falamos de modo acobertado alguma verdade sobre o que se passa em nós. Vou arriscar uma heresia psicanalítica, mas parece que tal mecanismo trabalha também, digamos, na superação dos Pecados Capitais, permitindo que eles, dolorosamente percebidos em si pelo sujeito, sejam então anunciados, trazendo-os algum alívio. Nos detendo à inveja, não é demorada a lembrança de modos, digamos, lúdicos, utilizados para se admitir senti-la.

Na trama do invejar — e orgulhar-se de ser invejado — buscamos encobrir aquilo que nos faz humanos, nossas desgraças. É por não querer ser apanhado em nossa condição real de nudez pelo Outro, e talvez nem por nós mesmos, que buscamos acreditar nas mentiras que vão se tornando fonte de crédito aos que nos cercam e, pior, a nós mesmos. A poesia de Raimundo Correia pode nos ajudar:

“Se se pudesse o espírito do que chora,
ver através da máscara da face,
quanta gente, talvez, que inveja agora
nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
guarda um atroz, recôndito inimigo,
como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
cuja ventura única consiste
em parecer aos outros venturosa!”
(Trecho de “Mal Secreto” — Raimundo Correia)

Inveja tem como raiz o latim invidere, que nos ensina qual é seu problema base, um não(in) ver(videre).

Dante Alighieri, importante poeta florentino do século XIII, foi quem escreveu o aclamado e conhecido poema “A Divina Comédia”, o qual é tripartido em “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”, seguindo o molde doutrinário Católico Apostólico Romano. Nela, Dante narra sua viagem, guiada por Virgílio (poeta épico latino da Eneida), pelos três ambientes aqui citados. Estando no “Purgatório”, se dá com “um monte que, ao subí-lo, extingue o mal”. Este é escavado em sete sulcos, sendo cada um deles o local de punição purgativa para cada Pecado Capital. Os invejosos encontram-se no segundo patamar inferior do monte, a uma distância ínfima do pior dos pecados, o Orgulho, estando ainda muito próximos do Inferno e distantes do Paraíso. Nele, “sentados contra a encosta e sustentando-se uns nos outros, como os mendigos cegos que, nos festejos religiosos, esperam a esmola sem pedi-la, contando apenas com o efeito da exibição de sua miséria”. Aproximando-se deles, Dante verifica que tem “as pálpebras costuradas com arame”. Mais a frente, ainda sobre os invejosos que ali via penarem, escreve:

“E como para o cego o Sol não chega,
assim aos pecadores de que eu falo
o Céu seu resplandecer também lhe nega
que as pálpebras lhes cose, para ocultá-lo,
co’ arame, qual co’ gavião bravio
se usa fazer pra quieto conservá-lo”. (p.87)

O invejoso, diante do objeto de sua inveja, é incapaz de olhar melhor para si, vendo-se permanentemente como faltante diante daquilo que julga sobrar indevidamente no Outro. E isto, a falta em si enquanto sobra no Outro, lhe é doloroso e pode chegar ao pontos de tornar-se o centro de sua vida. Esta cegueira é o primeiro pilar de sustento da inveja aqui apontado. Por conta disso, o invejoso não desfruta daquilo que recebeu como dádiva, apenas lambe poças secas. Jesus Cristo, ao contar uma de suas parábolas onde um homem distribui diferentes talentos (moeda circulante da época) aos seus escravos antes de sair a viajem e espera que deles cuidem e façam prosperar, ensina ao invejoso — eu e você —que a nós foi confiado algo de grande valor, por isto devemos ser gratos e a isto devemos nos fiar. (Mt25.14–30)

Em Amadeus (1984) conhecemos Antonio Salieri, um homem aparentemente piedoso e dedicado pianista, que quando criança entende ser chamado por Deus para louvá-Lo e se propõe a um pacto sagrado. Se Deus o tornasse um grande pianista, ele O serviria com presteza e dedicaria cada nota criada ao seu Senhor. A isto devota sua vida, até encontrar Amadeus. Ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart. Apesar da reconhecida grandeza, nada mais que um adolescente inconsequente, lascivo, glutão, beberrão e insubordinado, que em nada se aproximava da piedade que Salieri julgava ser necessária para um grande pianista que recebeu em troca o dom Divino da música. O deus de Salieri é o seu propósito. A partir de então, ele inveja e vive para a destruição de Mozart. Não descansa enquanto não o vê apagado do Mundo. Pondé sugere que,

"o problema de você conviver com alguém melhor do que você é que se sente uma humilhação contínua. Ela expõe para você as suas fraquezas, o que traz um sofrimento com relação à autoestima. [...] Quando alguém reúne muitas qualidades em si, o que normalmente os outros irão querer é a sua destruição”.

E aqui encontramos um segundo pilar de sustento da inveja, o intenso desejo de ver o objeto invejado aniquilado, destruído, envergonhado, desmantelado, porque, mesmo sem perceber, é isso o que está ocorrendo na alma do invejoso. Torna-se impossibilitado de apreciar o que é digno de apreciação.

Uma alma invejosa no “Purgatório” de Dante lhe confessa:

“Sábia não fui, ainda que Sápia
nomeada. Saber de outrem os danos,
mais que a minha ventura, me sorria” (p.89)

Uma das formas mais brandas — se é que podemos assim chamar — e cotidianas de causar dano é depreciando o Outro invejado. Iago, o invejoso da peça “A Tragédia de Otelo, o Mouro de Veneza”, de William Shakespeare, invejando aquele que foi escolhido para o posto que, pensava ser, por mérito, seu, diz sobre o escolhido por Otelo para ocupante, Miguel Cássio:

“O que é ele? Que dúvida, um grandíssimo aritmético, certo Miguel Cássio, um florentino, que tem a desgraça de ter as graças de uma esposa, que nunca conduziu um esquadrão no campo, e que entende tanto quanto uma fiandeira de linhas de batalha -um teorista livresco, bom para aquilo que a gente togada pratica com mais maestria. É pura prosa, pouca prática a sua vida militar. E foi ele o eleito, e eu, cujas provações aos olhos dele viram em Rodes e em Chipre e em outras terras, cristãs ou gentis, fico sem vento e à deriva, por causa de um escrituário. Esse conta-níquel logo será seu tenente, e quanto a mim — Deus me tenha — serei só o alferes de Vossa Mourecência”. (p.136)

O martelo em mãos, pronto a cair sobre o objeto a destruir, só alcança o próximo. Não há como invejar — no sentido verdadeiro da palavra — aquele que é melhor mas está distante, geográfica ou temporalmente. Na distância, admira-se. Não invejo Dickens, nem Nietzsche. Os admiro. Mas fosse eu alguém que almejasse escrever e pensar ao mesmo tempo e pisando a mesma terra que eles e certamente a inveja me tentaria. Aqui reside um terceiro pilar da inveja, sem esgotarmos os detalhes deste edifício. S. Kierkegaard — a quem talvez mais invejaria se na Dinamarca do séc. XIX — escreveu em “O Desespero Humano” que,

“A inveja é uma admiração que se dissimula. O admirador que sente a impossibilidade de ser feliz cedendo a sua admiração toma o partido de invejar. A admiração é um abandono de nós próprios, penetrado de felicidade. A inveja, uma reinvidicação infeliz do nosso Eu".

Sendo a volição invejosa intrínseca à natureza humana, o que a torna um pecado?

Simples, mas nem tanto.

A Escritura Sagrada da tradição judaico-cristã nos leva à consideração de que por um só Homem o pecado entrou no mundo, e por ele, este mal juntamente de seu salário — a morte — atingiu a todos, tornando os Homens miseráveis pecadores (Rm5.12). Com isso, a Escritura segue afirmando sobre nosso ser que ele se volta com gosto e vigor àquilo que é perverso, maculando toda bondade (Rm3.10-18). Esta vontade produz o que o apóstolo Paulo vai chamar em sua carta à igreja na Galícia de obras da carne” (Gl5), estando entre elas a inveja, além de sentimentos e ações que com ela possuem uma comorbidade. Os detalhes teológicos disto não cabem aqui, ficando então para investigações autônomas ou posteriores.

Imediatamente após tratar das “obras da carne”, São Paulo opõe a elas o chamado “fruto do Espírito”, que compreende toda virtude máxima, capaz de aproximar o Homem à sua imagem e semelhança original (Gn1.26) em Cristo e afastá-lo da herança adâmica diariamente.

É bem provável que o relato bíblico mais conhecido de um caso claro de inveja esteja logo na abertura do Gênesis (4). A inveja veio antes mesmo do primeiro assassinato da História humana, e foi seu motor. Caim prova da destruição do ser invejoso antes de seu irmão Abel, ficando abatido. Iaweh — Deus — com sua pergunta a ele nos ensina que o invejoso é alvo de Sua misericórdia e cuidado, além disso, que é possível e preciso assumir e dominar este impulso malignamente humano.

O Novo e o Velho Testamento (a porção semita e a cristã) nos presenteiam com outras histórias que testemunham a presença do vil ódio por aquele julgado mais bem aventurado.

Ainda no Gênesis (37), conhecemos José, o filho predileto de seu pai, Jacó. Não bastando a predileção paterna, fora escolhido também por Iaweh, e por isso sofrerá mais que seus irmãos, que o invejavam, mas o invejoso vê apenas o José amado e governador, não o dado como morto, traído fraternalmente, escravizado, perseguido.

Há também Saul, um rei da poderosa Israel que invejou um menino. Tendo-o como menino dos seus olhos, após voltarem juntos de uma guerra, esperando receber os maiores louvores, ouviu das mulheres — logo as mulheres — que a canção do herói tinha como protagonista Davi, o menino, e não o rei. O amigo e protetor se tornou um carrasco sedento por sangue, dominado pela inveja. O amigo leal não é aquele que o acompanha na dificuldade, mas que suporta o seu sucesso, como apontou Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro.

Por último, recordemos de outra parábola contada por Jesus Cristo. Um homem tem dois filhos. Um é pródigo, e rejeita o amor de seu pai em prol do atendimento aos seus prazeres. O outro, como todo legalista, um baú dourado que guarda escandalosos itens. Sua inveja se traveste de virtude, ele exige justiça, mas é só ressentimento (Lc15.11–32).

A inveja. Um pão amargo à nossa mesa toda manhã.

A instrução do apóstolo Paulo nos ensina que são o amor e a gratidão os doces remédios para a digestão diária:

“Exortamos vocês, irmãos, a que advirtam os ociosos , confortem os desanimados, auxiliem os fracos, sejam pacientes para com todos. Tenham cuidado para que ninguém retribua o mal com o mal, mas sejam sempre bondosos uns para com os outros e para com todos. Alegrem-se sempre. Orem continuamente. Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus. Não apaguem o Espírito. Não tratem com desprezo as profecias, mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom. Afastem-se de toda forma de mal. Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam preservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que os chama é fiel e fará isso”. (1Ts5.14‭-‬24 NVI)
Bibliografia

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia — Purgatório; edição bilíngue; tradução e notas de Italo Eugenio Mauro; São Paulo, Editora 34, 2014 (3ª edição).

Bíblia, volume I: Novo Testamento: os quatro Evangelhos. tradução do grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço — Iª ed. — São Paulo, Companhia das Letras, 2017.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2015.

Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamentos — São Paulo, Editora Vida, 2005.

GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. Vida Nova, São Paulo, 1999.

KIERKEGAARD, S. O Desespero Humano. UNESP, São Paulo, 2010.

KARNAL, Leandro. Pecar e Perdoar — Deus e o homem na história. 1ª ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2014.

PONDÉ, Luis Felipe. A Era do Ressentimento: uma agenda para o contemporâneo. Leya, São Paulo, 2014.

SHAKESPEARE, William. A Tragédia de Otelo, o Mouro de Veneza; tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira; ensaio de W. H. Auden. — Iª ed. — São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

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