carta para você

eu queria poder te dizer todas as coisas. 
tudo, tudo. 
com toda a clareza ou a confusão que existe. 
com a ausência de qualquer censura.

eu queria que você pudesse me compreender.
me compreender mesmo. o que eu fiz, o que eu não dei conta de fazer, os meus por quês. ainda que pra mim mesma tudo seja tão incompreensível.

eu queria que você pudesse ser eu sabe? entrar dentro de mim. me olhar com um olhar misericordioso. não de quem perdoa, “você errou, eu te perdoo”. mas de quem entende profundamente a minha imperfeição.

e que a gente pudesse ser imperfeitos juntos. 
que a gente pudesse ser de novo juntos. 
aquele junto que me fazia me sentir a pessoa mais feliz do mundo de ter você ao meu lado sabe?
aquele junto que nos fez juntos?
como isso tudo pode se espatifar assim?

sabe, eu preciso dizer isso. é horrível, mas eu não consigo sentir culpa. 
eu sei que é o caminho natural de toda pessoa minimamente ética. 
errar, e sentir culpa.
mas eu não consigo verdadeiramente. 
eu sinto várias culpas. eu sei que a culpa é minha.
mas eu não consigo acreditar que se eu voltasse atrás eu teria podido fazer diferente.
é que em nenhum momento da história eu senti verdadeiramente que eu poderia fazer diferente. 
por mais absurdo — e eu sei que é absurdo — que isso seja.

eu provavelmente não vou conseguir explicar isso, mas uma parte da minha segurança para essa afirmação vem da certeza de que eu estava muito preparada para impedir qualquer desvio de rota. 
eu estive, só eu sei, por esse tempo que parecia uma vida inteira, inteiramente voltada para você. dali até o final dos nossos dias. 
dali até os filhos, os netos, a casa construída na aposentadoria.

eu coloquei toda a minha energia, minha renda, meus planos.
eu investi no diálogo, investi na terapia, investi meus sonhos.
eu estava inteira sabe? eu estava totalmente inteira.
e de repente, algo veio e me atravessou.

eu choro de escrever isso. choro bastante. não pense que eu não sofro.
minha vida está esfacelada. eu perdi quase tudo de mais precioso que eu tinha. eu perdi a minha inocência, os meus planos, os meus sonhos, eu perdi até a capacidade de amar. eu perdi também o meu discernimento, o meu juízo, a minha capacidade de compreender a minha própria realidade. 
eu me perdi.

agora tudo que eu sinto é um vácuo. de consciência e de sentimentos.

tem horas que eu tenho muito medo.
medo da vida nunca mais voltar nos eixos. 
medo de nunca mais poder viver com verdade.

é de uma ironia triste dizer isso agora, mas eu posso assegurar a quem quer que seja, eu seria a última pessoa que eu mesma consideraria ser capaz de se colocar numa situação dessas. puta merda, eu fiz terapia demais, eu sempre me ocupei demais de ter uma vida nos eixos. eu que prezei tanto pelo diálogo, eu que prezei tanto pela autenticidade, pela transparência. só eu sei o quanto eu me entreguei para essa construção, para esse amor, para essa vida.

é só por isso, sabe? é só por isso, não por autoindulgência, nem por leviandade, não por amor próprio, nem por sobrevivência, é só por isso que eu não sinto culpa.

alguma coisa me escapou. 
e eu passei a vida cuidando para que nada me escapasse.

mas nada disso impede que eu sinta MUITA dor.

e a minha tristeza é que você talvez nunca compreenderá.

do pouco que me resta, aqui nesse lugar em que eu não sinto a força da gravidade e a leveza que assola o meu corpo é quase insustentável, há um verdadeiro querer bem imenso a você. um amor imenso desse lugar. da completa admiração. da profunda gratidão. da linda vida construída. uma vontade de dar meu sangue para que isso nunca te traga nenhum sofrimento. uma vontade mesmo de me alienar de mim mesma e apagar tudo isso. mesmo sabendo que eu não poderia. mesmo sabendo da inevitabilidade de tudo. e uma dor PROFUNDA (DILACERADORA — que chora pra dentro e pra fora, chora ardido, sufocado, mais lágrimas do que há água disponível no meu corpo) por ter causado tudo isso. e por não poder te dizer.

eu queria poder te dizer todas as coisas.
mas eu não sei o que fazer.

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