Fonte da imagem: Joliver

Ignis aurea

Vicente estava sentado em seu túmulo. Com o queixo apoiado na mão ele observava o vai e vem de gente nos corredores do Cemitério São João Batista. Era dia de Finados e parentes e amigos traziam flores para seus entes queridos que também estavam ali, mas já livres da carne. Algumas almas agradeceram o apreço, outras cobraram mais honrarias. Era possível ouvir nos cantos escuros e úmidos o lamuriar dos mortos esquecidos. Zombarias, acusações e anúncios de vingança também vinham de toda parte. Mas esse pandemônio não tirava a beleza dos belos encontros envolvidos de luz das almas boas; neles reinava a paz de dias tranquilos. Vicente estava alheio a tudo isso como que numa estase, tão parado quanto o concreto que envolvia o paletó de madeira e seu corpo apodrecido.

Ele olhou para o lado e viu o buquê que sua mãe havia mandado o coveiro comprar, como sempre havia feito após o primeiro ano de falecimento de Vicente. Como um ato de vingança ela não o visitava, pois achava que ele não merecia. Vicente dormiu ao volante após sair bêbado de uma festa e bateu em um poste; morreu ainda no local, preso nas ferragens. Ele tentou tocar as flores, mas os dedos as atravessaram. Eram narcisos amarelos para um filho egoísta.

Ninguém veio ajudá-lo como algumas religiões declamavam, não tinha ido a nenhum céu ou inferno. Descobriu que estava morto em seu velório e, como não sabia para onde ir, decidiu seguir o corpo ao cemitério onde vivia até então e saía de lá apenas para assistir a peças no Teatro Poeira, arte a qual tanto gostava. Via os outros mortos, em estados resplandecentes ou decrépitos, e falava com eles. Também tentava falar com os vivos, mas eram poucos os que o ouviam.

Ao longe Vicente viu Anita, uma garota que havia conhecido quando ainda habitava um corpo. Ela era uma mulher plenamente boa, extremo contrário dele, que tinha a vadiagem e os vícios da bebida e do jogo como modos de vida. Uma tênue luz envolvia Anita, que ia visitar o túmulo de seus pais; trazia rosas vermelhas e margaridas. Ela colocou as flores entre o retrato dos dois e beijou as fotos com carinho. Anita não podia ver, mas seu pai e sua mãe estavam ao lado dela. Quando a abraçavam ela sentia uma felicidade imensa.

Vicente seguiu Anita quando ela saiu do cemitério. A presença dela, sua luz, o acalmava, preenchia-o com uma paz que nunca havia sentido. Ele observou a delicadeza de seus gestos e a espontaneidade de suas ações. Ajudava quem podia na rua nem que fosse apenas transmitindo ternura através de um sorriso. Já era noite quando chegou em casa e acendeu algumas velas pois gostava do ambiente iluminado por elas. Ligou o aparelho de som, colocou uma bossa nova para tocar e foi tomar banho.

Com a música tocando e o som do chuveiro, Anita não ouviu o crepitar das chamas do incêndio que se iniciara; uma vela, mesmo bem fixa no castiçal, tombara e ateou fogo em uma cortina. Vicente ultrapassou a porta e entrou no banheiro, gritou tentando alertá-la, mas Anita não o ouviu. O vapor da água quente se moldava ao redor de sua existência sutil, mas não era o suficiente para que Anita o visse. Vicente voltou para a sala e tentou apagar o fogo, sem sucesso.

Anita só se deu conta do que estava acontecendo quando se vestira e viu a fumaça que saia por baixo da porta. Ela abriu a porta e viu seu apartamento em chamas. Para piorar a situação viu uma figura humanoide de fumaça correndo pela sala. Anita gritou e correu abaixada para seu quarto, único caminho que poderia seguir. Ela gritou mais alto quando percebeu que a fumaça humanoide a perseguia. Vicente disse que estava tentando ajudá-la, mas ela não o ouviu. Anita abriu a janela e tentou alcançar a do vizinho. Na rua toda gente observava a cena. Os bombeiros já estavam a caminho, mas o fogo consumia rápido o apartamento. Anita estava desesperada e escorregou em um dos apoios. Caiu inerte no chão e morreu na ambulância a caminho do hospital.

Vicente estava sentado novamente em seu túmulo, o rosto escondido entre as mãos. Sentia-se em parte culpado pela morte de Anita, imerso em remorso ele estava — ela poderia reagir melhor à situação se não o tivesse visto. De repente um brilho dourado surgiu por entre seus dedos e ele olhou para cima.

A mulher usava vestido branco e uma coroa de margaridas na cabeça. Era Anita sorrindo para Vicente e lhe oferecendo uma flor feita com a luz do sol da manhã.

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