No silêncio da noite

Acordo devagar no meio da madrugada. Olho o teto e sinto-me pesado. O sonho ecoa pela minha cabeça. A mulher que um dia amei estava ali, deitada nua em uma cama e ao alcance da mão. Olhava para mim de um modo doce e com um sorriso plácido, declarando-se ao homem que ela ama. Eu a observava através dos olhos do Outro. Naquele momento senti a mais plena paz e o amor que pairava no ar.

Sento na cama e coloco a mão no rosto. A testa está quente, mas não é febre, é o calor do verão que em mim fez morada. Pego o celular e vejo as horas: são 3h42. Levanto e vou à cozinha passar um café, pois não desejo me entregar aos sonhos novamente com receio de adentrar reinos estranhos. A contar pela hora e pelo momento que vislumbrara considero a possibilidade de ter mesmo estado lá, imagino até a cena: cansado, o Outro achou que estava para cochilar, tomei o lugar da consciência dele em seu corpo por alguns instantes, saí e ele fingiu que nada aconteceu.

Se tivesse sonhado isso no ano passado talvez ainda continuasse na cama, imerso em choro e lamentações. Agora, não. Não lembro da imagem, apenas guardo a lembrança de tê-la visto. Se tornou uma ausência.

Desligo a cafeteira e derramo o café em uma xícara; pego-a e vou à sala observar a cidade pela janela.

Algumas janelas dos outros prédios estão acesas, constelações de criaturas solitárias. O céu está opaco, ofuscado pela luz da cidade. (Quão audacioso e ganancioso é o homem por até mesmo roubar nossa visão das estrelas?). Além do opaco há homens e mulheres que se lançaram em foguetes e que terão que enfrentar o planeta inteiro para voltar à crosta terrestre. Creio que aqueles que amam são astronautas. Eles se sujeitam às mais diversas intempéries para alcançar o sublime, se lançam em profusão desvairada contra todas as adversidades mesmo havendo a mínima possibilidade de voltar. Se alguém se sujeita a isso, então é porque sabe que o que o espera é de valor imensurável.

Não se sabe nada sobre os que vão para não mais voltar, mas todos que voltam, esses voltam feridos. A dor é inimaginável nos primeiros dias, meses, anos, mas depois vai passando até se tornar uma cicatriz. Tem vezes que o motivo dela existir até foge à memória. Me espantei quando senti isso pela primeira vez, o modo como alguém que foi tão amado se desvanece no coração que um dia foi sua morada.

Já são 4h16, bebo o café. Espero que a madrugada me traga um novo amor. E se não trouxer, não faz mal.

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