Vida

Em todo instante de minha vida, desde que me entendo por gente, sinto uma lacuna aberta em mim. É como uma pergunta esperando resposta, uma pequena dúvida que se instalou em meu âmago. É como “Será que ela gosta de mim?” ou “Deixei o gás ligado?”. A resposta paira no ar, sente-se sua presença, mas o desconhecimento perpetua a natureza etérea que lhe é própria.

A parte mais vazia desta lacuna diz respeito ao sentido da vida.

Nunca vi sentido algum nela. Sempre fui peixe fora d’água, isolado em qualquer coisa que fosse. Nem me sinto preso à carne, acredita? Sinto como se minha consciência fosse uma névoa que paira em volta do meu corpo e age sobre ele; o tato percebe os objetos, mas sinto que não estou ali. Também sinto que sou um titereiro que manipula as cordas que dão movimento a um boneco inerte. É como a insônia é definida pelo Narrador, em Clube da Luta.

Com insônia nada é real. Tudo está distante. Tudo é uma cópia de uma cópia de uma cópia.

Dias vêm e vão e nem me dou conta. Nada me é palpável, concreto. A falta de pertencimento faz as coisas parecerem de mentira, ensaiadas, cheias de falácia. E aí vem o questionamento que chuta meus joelhos e me faz desabar: Para quê viver? Esse mundo é odioso. Olhe em volta, tudo é decrépito. As cidades são empresas gigantes em que um monte de gente habita; se você não tiver dinheiro você não é ninguém, os dígitos em sua conta bancária, algo efêmero, importam mais do que quem você é. O dinheiro é louvado e alimentos saudáveis são caros; para poupar uma quantia você sacrifica sua saúde. Por que não há distribuição de tickets de desconto em hortifrutis sendo que seus produtos são muito mais perecíveis que hambúrgueres? Envenenam a comida, o ar, os relacionamentos e tudo mais que se possa imaginar.

Com o advento da Revolução Industrial e o desenvolvimento da tecnologia o ser humano começou a ter acesso aos mais variados meios de informação. Como não era capaz de processar tanta coisa ele passou a se interessar apenas por questões de seu entorno habitual e aquilo que era de seu interesse — Georg Simmel chamou isso de atitude blasé -, o indivíduo ignora tudo aquilo que não lhe é significante. Daí provém a falta de empatia no contexto da pós-modernidade, por exemplo. Preocupado com aquilo que lhe é próprio, o indivíduo não percebe a existência do Outro, e, se percebe, não compreende suas dores, aflições, alegrias, necessidades, etc.

É como se eu não tivesse uma atitude blasé e me importasse com tudo. Não há um filtro ou uma luz de emergência que vai disparar e avisar “Ei!! Pare, senão enlouquecerá!!”. Pelo contrário, a informação vem e dela nascem dezenas de outros questionamentos.

Visitei Socorro no último final de semana e fui surpreendido por algo peculiar.

Mal pisei na cidade, a maior parte da visita pelo centro foi em um ônibus da universidade, mas percebi havia vida ali. Senti que tinha entrado no mar e que de lá podia ver todas as suas maravilhas. Sabe, eu sinto coisas. Sei se uma pessoa é boa ou ruim só de estar perto ela, ambientes também. Consigo ver se uma pessoa é cheia de poesia e capto isso em contos ou poemas. São tão admiráveis as pessoas que falam sem dizer palavra e irradiam luz. Socorro é cheia de poesia e amor.

A cidade tem seus problemas. “Toda sociedade tem suas dificuldades”, uma professora minha disse uma vez. Só que lá encontrei uma resposta para parte do meu vazio: o Rio de Janeiro não tem o tipo de vida que é adequada para mim. Não é vida. Já Socorro é, e é vida cheia de ternura. Isto não faz com que a cidade seja imaculada, mais importante que a coisa é o além da coisa: vi que o sentimento existe e é possível de ser alcançado.

Foi na Tijuca que encontrei o máximo de vida no Rio de Janeiro e ela só existe, decaindo a um modo razoável, até Ipanema. O pior existe na Gávea e no Leblon, que é onde um grito metálico e estridente sai dos prédios e arranha minh’alma. Tudo é vazio, desprovido de significado. Falo do significado real, não do simulacro de sentimento que é atribuído ao luxo. Lá as coisas são constituídas de marcas, etiquetas, rótulos vários. Decadência.

Estou sendo crítico demais? Se sim, que seja. Quero aquilo que está nas profundezas da terra. Quero o amor e o sentimento do mais bruto e puro, tão profundo que carrega em si as raízes da aurora dos dias. Não há tempo a se perder em ilusões, pois ele urge e ruge. Quero ver a alma dos povos nua e crua. De que serve o padrão de atendimento de lojas, estabelecimentos comerciais que estão por toda parte do país? É tudo fabricado e mentiroso, pois é desprovido de essência. Ei de ouvir o português cheio de sotaque e vocabulário próprio, de carinho e paixão daquilo que é simples, leve e sublime. Quero a intensidade da chama viva e me cegar ao olhar para ela.

Como a tragédia é inerente à minha existência cá estou de volta ao Rio de Janeiro. A cidade é um inferno, meu Deus. Como pude um dia amá-la? É tanta miséria e desespero que chego a enlouquecer. Sabe o que é brutal? Terei que continuar nela ainda por um bom tempo, oh céus. Não sei como farei para manter a sanidade.

Uma cidade do interior como Socorro pode até ter os mesmos problemas que o Rio de Janeiro, mas a escala é menor e isso ajuda a tornar a vida mais palpável. É possível percebê-la de modo mais completo e harmonioso. Me mudarei para uma cidade no interior na primeira oportunidade que tiver. E até mesmo o que chamo de “primeira oportunidade que tiver” é relativa. O Rio de Janeiro é uma cidade morta e tudo piorou agora que vi uma cidade viva. Tudo parece mais falso e vejo as pessoas como se elas fossem cadáveres que andam, fantasmas que perambulam sem ter noção do que fazem.

Não sei como encontrar a luz neste mundo de sombras. Pior ainda: não sei ser luz neste mundo de sombras.

Espero te encontrar novamente, Socorro. Saiba que te amo. Talvez não haja ironia você ter esse nome e significado tão intenso para mim, eu que tenho um destino por natureza fatal. Quem sabe você não foi, ou será, minha tábua de salvação.

Por fim almejo um lugar onde minhas veias pulsem com a vitalidade encarnada e eu encontre a vida. A vida, a vida verdadeira, é feita de terra batida, água de rio e amor.

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