Despedida

Iam pela rodovia em alta velocidade. Sentia-se tenso em ter de agüentar o rosto dela encostado na janela e as faixas de luz que iluminavam seu rosto empalidecido pela noite sem lua. Vinha desde a cidade dirigindo naquela posição displicente: com um cotovelo apoiado entre a porta e o vidro, e o braço direito todo esticado, alcançando o volante de leve com os dedos; seu corpo todo encostado no acento. Qualquer tentativa de levantar o astral da corrida pareceria dissimulado demais; as palavras soariam tortas, os risos não seriam sinceros.

A atmosfera era consonante com aquele paradoxo da educação comum: deve-se ser educado em parecer simpático, contudo, não é correto dissimular um estado de espírito. Ela estava triste. Ele sentia raiva. Ou talvez algo mesclado a isso; vinha junto também um pouco de decepção por não ter feito o suficiente para que ela ficasse. Culpava-se e culpava-se por ter medo de se entregar; por prezar tanto por seu orgulho a ponto de não permitir que se exalasse em palavras o medo de perdê-la.

Àquela altura do caminho, já bastara de contar as placas. Não estava mais preocupada com as horas. Talvez se perdesse o vôo teria mais um dia ao lado dele. Com a cabeça apoiada na janela, os brincos prateados tilintando no vidro, ao balanço do carro. Pensou que talvez fora um erro se vestir tão bem na noite em que ia embora; bateu-lhe o medo de que ele pensasse que ela queria mesmo partir, deixá-lo. Alimentava um amor quase maternal por aquele homem — aliás, aprendera a fazê-lo. De dentro do vestido florido tentava reconstruir os episódios daquela novela: como ele fez para cativá-la tanto. De certo não fora sua insegurança em nunca saber se decidir, muito menos tanta implicação com sua falta de atenção.

Virou seus olhos para ele e os brincos pararam de tilintar. Ele sempre parecera mais velho de perfil. A barba fina e cheia de falhas, o nariz que nunca fora seu ponto forte. Perguntava-se se ele conseguiria enxergá-la pelo canto dos olhos. Quanto tempo ele demoraria a perceber os olhos grandes e castanhos que lhe miravam. Desejou por um momento que, de algum modo, sua angústia se transferisse para ele e assim pudesse entender o quanto era difícil deixá-lo. Não quis esperar e logo voltou. Tinha medo de não saber o que dizer quando ele lhe voltasse o olhar. Quanta estupidez, depois de tanto tempo. Naquela hora, não conseguiu compreender. Deixou-se levar pela vertigem de placas e luminosos que pareciam correr apressados na direção contrária. Já dissera tanta besteira quando deveria ter ficado calada. E agora, quando rogava por sinceras palavras, sua boca silenciava. E tinha vergonha.

A noite cálida suprimia as cores e os sons. Não havia estrela alguma no céu de um azul anil, quase negro; podia-se culpar a poluição, as luzes da cidade ou até mesmo o tempo que estava para chuva. Estavam tão tímidos como na primeira vez em que se beijaram; tinham a impressão de que um estranho se sentava ao lado. Aquele silêncio do excesso de palavras não ditas lhe explodiam dentro da boca e só o que restava eram os gestos imprecisos. Ele não ligaria o rádio — não queria que ela reclamasse da música dele. Ela não lhe perguntaria sobre o caminho longo que tomava para o aeroporto — não queria ouvir aquele tom cínico que sempre fazia quando o questionava. Era certo que ambos preferiam o silêncio à qualquer expressão que viesse a difamar aqueles últimos minutos. Três anos de sinceridade que se iam, resumidos à noite escura e enclausurada angústia.

Ao ver a placa de indicação, o motorista fez uma curva acentuada à direita e a silhueta do aeroporto despertou na noite, branca e luminosa. Girou a chave na ignição e esperou por alguma palavra dela. Após descerem do carro, óbvio que trocaram poucas palavras de ordem, de gentileza, aquelas de conveniência. Mas foi tudo. Ele sempre insistira em carregar suas coisas. Não haveria ela, agora, de lhe refutar a vontade. Chegaram com tempo livre. Café?

Sentaram-se. Ambos com as mãos relutantes, abraçando xícaras de café. Observavam-se em cada detalhe. Há tempos que não reparava no frescor de sua pele, aquele tom moreno de sol. As mãos finas e pequenas que seguravam pequenos anéis coloridos. O longo cabelo castanho preso atrás e as mexas que caíam displicentes sobre a face; as sobrancelhas sempre naturalmente arqueadas, parecendo implorar; os olhos castanhos que ele temia imaginá-los verdes; o decote do vestido colorido ele não pôde deixar de reparar — mas por quê aquele tom em noite tão escura? Por certo encarava como uma afronta à angustia que sentia em vê-la partir. Será que ela está feliz em partir? É certo que espera encontrar outro, lá pra onde ela vai… Sempre lhe faltou um pouco de sensibilidade. Não parece abatida, consulta sempre o relógio! Por que não vai logo, então? Não, não seria capaz.

Ponderou se seria arriscado demais tocar suas mãos, sentir aquele calor jovem verter-se sobre ele. E quão ridículo era aquilo tudo: amaram-se por anos e agora ele receava em agir — como um acionista que calcula a compra e venda de qualquer coisa. O café estava ironicamente agradável — ela nunca soube fazer um decente. Permitiu-se rir dentro de si por um momento, ao mesmo tempo em que teve medo que ela o percebesse. E ficou triste de lembrar que gostava tanto daquela garota — tanto assim que tinha medo de lhe contar. Medo de assustá-la com suas verdades sinceras — não conseguia deixar de imaginá-las sempre expressas naquele tom cafona de novela. Por que não me convence a te odiar? Conte-me algo que tenha feito de errado, alguém com quem tenha me traído, alguma mentira que um dia tenha me contado. Pior do que te ter longe é gostar de você, mesmo assim.

Mas qual seria a razão do silêncio daquele garoto? Ele, que sempre insistira em falar sem parar, às vezes até inconveniente. A garota tinha medo daquele olhar perdido; se assustava por não saber o que pensava a cabecinha barulhenta daquele jovem, tão cheia de tantas idéias. Ela percebeu que os cabelos dele não estavam arrumados do jeito que ela sempre gostou — a franja bem arrumada de menino educado e as mexas levemente umedecidas por um descuido proposital. Gostava do quanto ele se esforçava por lhe agradar. Aprendera a apreciar os mesmos filmes e músicas que ela. Será que ele deixaria arrumar-lhe os cabelos ainda uma última vez? Aquele carinho materno que sempre insistira em lhe dar. Ficou com medo de não poder senti-los nunca mais: seus cabelos oleosos, suas mãos grandes e lisas, sua pele clara de homem frágil. E era triste vê-lo assim tão distante, tão calado — como daquela vez em que quase terminaram. As frases enérgicas e cheias de acusações já tinham sido ditas e ela sentara na ponta da cama de lençóis amarrotados, o corpo cansado, debruçando-se sobre os joelhos; ele estava de pé, ao lado da janela — a cansada luz do crepúsculo lhe tingia o corpo de um amarelo dourado e ela podia sentir sua respiração descompassada de quem segura uma lágrima. Diz alguma coisa, por favor. Não gosto de te ver assim, eu fico com medo. E os olhos dele se perdiam por entre a paisagem de edifícios. Antes tivessem rompido de vez naquele dia — quem sabe toda a situação de agora não estaria acontecendo.

Sentia-se nos olhos de ambos o desejo de verem-se em silêncio — nele expresso a vontade de que os olhares se fizessem tão alto quanto as palavras. O luxo que os casais temem em se presentear: o silêncio, o vazio das palavras, o aglomerado de gestos e olhares e, talvez mais de perto, os aromas. Fora inevitável, pois, aquela última conversa. O homem da xícara já vazia não resistiu às palavras inócuas que lhe enchiam a boca: o tempo, o café, o trânsito, a conta de luz, os brincos dela. Tentava, na nuance quase invisível de frases irrelevantes, inserir com cautela a angústia que sentia em vê-la partir. Rezava para que ela não percebesse o discreto tremor em sua voz. Os gestos do rapaz eram contidos, sua voz soava baixa, as frases não tinham seu costumeiro tom cômico. Ele se escondia, como se a consciência de uma saudade infinita o fizesse se encolher dentro de si e temer ser verdadeiro. Ficara encabulado apenas porque estava com medo. Não queria usar aquele tempo para suprimir a sua angústia, para mentir todo seu estado de desesperança. Queria mesmo era se debater em lágrimas, ferir violentamente o próprio corpo e o dela. Teve um desprezo mórbido pelo mundo que girava e não parava para dar-lhe tempo de se despedir.

Faça parar. Alguém, por favor, faça-o parar. Tem muito de mim naquela voz grave de homem perdido; depositei demais da minha vida nas mãos grandes e delicadas daquele garoto tão sincero. Toda essa conversa é um abraço frio que me aperta sem piedade. Gostava dos abraços dele: faziam o calor ser agradável mesmo sob um sol opressor. Está tão frio e ele não pára de falar. Se ao menos estivesse aqui o seu bom-humor. Sinto frio. De repente, estou sozinha e com medo. Ela ainda não havia tomado seu café — adoçara-o demais e agora nem sabia que esfriava. Aquela jovem, mesmo assim mais velha que ele, teve nojo de tudo o que usava; queria sentir-se nua e abraçá-lo assim. Trazer o mundo para mais junto de si. Calculou o escândalo que seria em berrar a saudade óbvia que sentiria dele. E se calou. Já não ouvia mais as palavras que ele dizia — soavam como a saliva que escorre preguiçosa, de alguém que pegou no sono por acaso.

Mais tarde, quando a saudade já houver soterrado todo seu ânimo, ele se culparia e não saberia explicar porque olhou no relógio àquele exato momento. Acho que está na sua hora. A moça que, no frescor daquele vestido, parecia carregar a leveza de uma criança, sentia que todo o gelo dos pólos convergia para o lugar onde agora se encontrava. Teve medo. Constatou a desagradável impressão de que, a cada pequena despedida, sentia uma parte do seu corpo se desprender de si.

Quiçá o homem desajeitado que corria pagar a conta não a houvesse visto já a caminho do balcão da companhia aérea. Ela já fora, não esperara por ele. Sempre teve medo dessa independência inconveniente da garota de que gostava tanto. Nunca conseguiu entender porque ela não o esperava na saída das aulas; porque não o esperava terminar o almoço no refeitório; porque não o consultava sobre as decisões que tomava. Sempre quisera atribuir ao seu gênio forte, aquele jeito de ser que o assustava — talvez por ter como modelo a submissão de todas as garotas, namoradas de seus amigos. Nunca conseguira se ver confortável com aquilo mas, agora que suas horas se encurtavam e o tempo todo se comprimia, quis correr apressado atrás daquela menina — e o fez.

Chegara ao balcão da companhia a tempo de vê-la se virar com as bagagens que deveria despachar. Pôde flagrá-la naquele raro momento de seriedade misturada com um singelo toque de aflição; pôde ouvir sua voz soar séria e grave — teve vontade de rir. E de fato sorriu, vendo aquela moça linda mostrar seriedade e simpatia. Subitamente reconheceu em si o orgulho de tê-la tocado um dia: observava suas mãos pequenas, de dedos finos, manusearem displicentemente os documentos; vez ou outra jogava discretamente o cabelo para o outro ombro, ajeitando logo em seguida algumas mechas por detrás das orelhas; seus cabelos castanhos, de suaves mechas loiras, desciam levemente ondulados e descontraídos até o meio de suas costas que ele sabia, por debaixo daquele vestido, escondiam uma pele morena e delicada.

Não lembrava de algum dia ter sentido tamanho frio lhe subir a espinha, quando ela, de mãos agora vazias, se dirigia a ele com uma satisfação mal dissimulada. Todo o pouco que havia em seu estômago se revirou energicamente. Terminou? Acabou tudo, então? O que me resta é o ínfimo caminho até o portão de embarque. O que se pode fazer no tempo de alguns passos? Talvez já não seja o momento de dizer que me fará falta, e talvez eu não o tenha feito direito. Tenho medo. Todos os ruídos soam altos demais e todos os aromas incomodam.

Se for possível ter ódio num momento desses, posso dizer que tive. Tudo se acabava em entrepostos burocráticos e ninguém fazia nada. A frieza de tudo aquilo me arranhava os órgãos — e eu sentia falta de ar. Como se não houvéssemos discutido o assunto incontáveis vezes e ele já tivesse desistido de me dissuadir do contrário, com aquele maldito dedo apontado para mim. Sua voz era alta, pesada, de súplica, mas nunca agressiva. Eu, me sentindo acuada por seus discursos veementes, por pouco não abria um sorriso tal era o contraste entre sua voz grave e o rosto de menino. Ele não sabia, mas enquanto discutíamos, nesses últimos dias de toques frios e palavras sinceras, eu reparava em seus gestos, em seu cheiro de menino inseguro, na sua voz de homem precoce. Reparava naquele jeito dele de pôr as costas e um dos pés contra a parede enquanto me esperava, simulando uma pose de cinema; ou na voz baixa e infantil, quando confessava algum erro. Tudo isso eu guardei para arranhar meu coração toda vez que eu lembrar e ele não estiver lá. E é por isso que agora ele me puxa pelo braço, agressivo, não me deixando outra alternativa senão me agarrar ao balcão, mas ele é persistente e mau, me arrasta com sua força — minhas unhas arranhando o chão do aeroporto — eu grito, suplico, peço que não me leve até aquele avião, que não me deixe chegar lá; ainda resta muito para reparar, para dizer, para guardar. Quase não me agüento dentro daquele vestido, e me seguro para não perder a compostura. Contentei-me em assentir com a cabeça e dar-lhe a mão, gentilmente.

Parece que não entende. Claro que eu não disse nada, não ousaria uma última súplica àquela altura das horas. Tenho uma vontade doentia de lhe acertar o rosto, de lhe ferir a face e o corpo todo: como ousa fazer o que faz! Não, nenhuma correspondência nos aproximará mais. E suicidar-me agora não adiantaria de mais nada. Talvez quando o vazio me tomar conta e eu for me encolher em posição fetal no canto mais escuro e frio de nossa cama; ou quando o cheiro dela se evaporar dos pertences que esquecera comigo; ou quando suas fotos já não cessarem mais, o marejar dos meus olhos; ou quando música alguma for capaz de traduzir a saudade que virá me perturbar. Talvez eu até faça algo da minha vida. Mas agora nada mais adianta. O que me resta é apenas o caminho curto até o ponto em que ela escorregará os dedos sobre minha mão até não tocá-la mais, nunca mais.

)