Verbo e pronome
Basta; não há mais nada a se fazer; ao menos nada que se queira fazer. Então combinemos o seguinte: vou sair, acender um cigarro; volto quando tiver secado os olhos e recuperado a voz. Se for embora os olhos não secam. Mas assim não ha conversa que se encerre. Contigo, não ha choro que seque. Ora, assim já se sentencia o culpado. Mas se não é vvocê, sou eu? Talvez sejamos os dois. Isso é desculpa desculpa de culpado. O que fazer, escolhemos um terceiro? Cinismo aqui não é humor. Não eh cinismo; é proposta, mesmo. Propõe ceder? Alguém tem que ceder. Se for pra encerrar tudo, cedo eu. Por comodidade não vale. Abdico do meu orgulho e mesmo assim rejeita? Abdica de me condenar aqui, mas ainda se julgara inocente quando acender o cigarro. Posso sair, então? Não, nada se resolveu. E nem se resolverá. E fica como? Como se nada tivesse acontecido. E se acontecer de novo? Paciência. Paciência uma hora acaba. Então acabamos todos. Fala como se não se importasse. Me importo com agora, com essa obsessão de tentar resolver e nunca deixar passar. É, não vale mesmo a pena. Que bom, seque o rosto e vamos. Não, você não vale a pena. Assim, de repente? Não, desde ha tempos; de tanto deixar passar e nunca resolver. Só tem feito me suportar esse tempo todo? Tenho me conformado, mas já não basta. Se for assim, teremos terminado por muito pouco. E o que seria muito? Não sei, na verdade não quero saber. Enquanto isso, o pouco machuca muito. Parece que não ha o que não te atinja. E a você não ha como atingir. Por acaso gostaria? Talvez não me sentisse assim, refém. Não vá querer me culpar por sentir como se sente. Te culpo por por assim, as coisas. O que propõe, então? Nada, não estou aqui a te tutelar. Ja propus, mas nada lhe agrada. Porque nunca se pôs em questão. Desculpa, mas não reconheço em mim a questão. Sua alegada inocência me angustia; contudo, não quero ser eu a te acusar. Mas diga! Não, assim crio eu o problema. Pelo menos ai teríamos algo a tratar. Quanto cinismo ainda é capaz de me atirar? Tanto quanto for capaz de insistir no mesmo drama. Como assim, drama? fala como se fosse isso capricho meu. Fala-me de problemas sem verbo nem sujeito; é sim, apenas drama. Não atribuirei verbos nem nomes até que reconheça. O que? Que essa conversa tem um propósito e que eu não fique como “quem chora” e você como “quem fuma”. Aqui, então fuma um cigarro. Não quero teu lugar. O que quer, então? Quero você. A mim já tem. Basta.
