Esquecimentos

Em uma época que eu precisava de muitas referências femininas na minha vida eu li Não Sou Uma Dessas da Lena Dunham. Sou apaixonada pela série Girls e a possibilidade de entrar dentro da cabeça da dona daquele mundo era incrível demais para ser verdade. Ganhei o livro da minha melhor amiga e o devorei em dois dias.

O livro é uma autobiografia que trata de amor, sexo, amizade, trabalho e dramas que só a Lena e todas as outras mulheres do mundo já passaram, pelo menos uma vez. Gastei vários post its cor de rosa marcando frases que me abraçavam — tanto na hora como depois nas outras duas vezes que li o livro.

Uma delas, no capítulo sobre relacionamentos, era a frase: “Minha mãe diz que isso é normal, que os homens se orgulham de todas as suas conquistas e as mulheres desejam esquecer todas elas”. E durante esses dois anos que Não Sou Uma Dessas habita minha estante, ou minha mala durante uma viagem, diversas vezes eu me pegava lembrando dessa frase.

Geralmente acontecia depois de uma decepção amorosa. Quando eu me sinto vulnerável e raivosa ao mesmo tempo, revesando entre minha playlist mais triste e a que eu usava nos treinos de muay thai.

Quando o coração aperta e a vontade é de, casualmente, bater a testa na parede mais próxima para causar uma concussão cerebral capaz de apagar a memória do último mês ou do tempo que passamos juntos — eu tendo a sofrer dramaticamente nessas horas.

Eu conseguia ouvir uma voz que, imagino ser a mãe da Lena, na minha cabeça, me lembrando que esse desejo de esquecer é normal. E, pensando nas minhas cinco principais vontades de causar danos cerebrais passadas, era só nisso que eu pensava depois do término.

Faz parte do meu processo de luto por um relacionamento. Desejar do fundo do coração esquecer dos bons momentos e dos ruins, do jeito que as mãos se encaixavam, das risadas, dos lugares que visitamos juntos, do tom de voz. Queria muito me limpar, fazer uma dessas dietas radicais e desintoxicantes, para ver o que sobrou de mim ali no meio.

E depois de me achar em meio a tantas referências de outra pessoa, a vontade de esquecer se transforma. Não é mais apagar para não lembrar com tanta frequência e, assim, superar. Mas para dar espaço, aceitar a mobília do outro que sempre fica para trás e mesmo assim abrir as portas e janelas. Para começar tudo de novo. E de novo. E mais uma vez.

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