Parte de mim foi apagada

Meu nome esconde parte das minhas origens e foi só depois de muito tempo que entendi o que isso significava.

A História que eu tanto amo pode ser cruel, pode invisibilizar, ajudar a esquecer. Pode deixar de ser a fonte tão confiável de memórias.

Meu nome esconde parte das minhas origens e foi só depois de muito tempo que entendi o que isso significava.

Se o Passafaro me coloca na disputa nacional dos descendentes de italianos, o Alves é uma incógnita, e uma boa parte de mim está escondida em algum lugar da história. Em algum lugar do sertão da Paraíba.

“A minha mãe era índia, que corria solta pelos matos”

Pouco se sabe das origens dos meus avôs maternos. Um tanto acolá de meu pai era negro, um tanto acolá de minha mãe índia. Se os descendentes foram apagados pela falta de água, comida e documentos, o que sobrou foi cultura e luta.

Pra minha família, o Norte é tudo que está acima de São Paulo, incluindo a Paraíba
“Por que lá no Norte…”

Uma vez me perguntaram se no tempo dos meus avôs eles comiam, dormiam e viviam melhor que nós, paulistanos. Respondi que até podia ser, mas por dentro eu sabia que a resposta era NÃO.

Foi nos anos 70 que os Abreu Alves desembarcaram em terras paulistanas, diretamente na caótica, multicultural e ilusória Rodoviária do Tietê. Cheios de esperança, o vô e os filhxs todxs esperavam ansiosos pela vida melhor, digna.

Mas não é esse o ponto interessante — até porquê de 10 migrantes, 9 vieram em situação idêntica a minha família, o que não nos torna nem um pouco especiais dignos de relatos, crônicas ou do tempo de vida de qualquer leitor.

Mas, percebam: eu disse o vô desembarcou. O que nos torna diferente é a grande responsável pela virada, pela mudança. E hoje, por eu ser feminista, independente. A minha vó.

Foi a Dona Vi quem teve o impulso de vir pra São Paulo atrás da vida melhor. Pegou empréstimo com uma amiga, deixou os filhos aos cuidados do marido, chegou, arrumou emprego, mandou dinheiro e as passagens pra que todo mundo viesse. SOZINHA. De sua livre e espontânea insatisfação.

Uma geração de mulheres que não estão satisfeitas

Eu fui criada numa cidade do interior de São Paulo, chamada Penápolis. Pequena como é, pode ser adorável para uns e absurdamente irritante para outros. Eu passei parte da minha vida me sentindo presa, limitada e sufocada por pessoas e por uma cultura que eu não entendia e nem de longe concordava.

Foi só ao sair de casa, aos 18, que entendi que aquele lugar era pequeno demais pra quem queria mais e tanto. Foi aos 18 que a minha vó, tão durona em minhas memórias, clareou em minhas ideias e mostrou que devemos ser insatisfeitos, sempre.

Esperança: canções de ninar incluíam Dorival Caymmi