Clubes brasileiros não sabem contratar técnicos

A chegada de Enderson Moreira ao Fluminense, um mês e dois dias depois dele ter sido demitido do Atlético Paranaense, e a três dias de quando se completariam dois meses com Ricardo Drubscky, agora ex-técnico, fez com que muitos questionamentos aparecessem sobre a escolha do Tricolor carioca. De todas as análises possíveis, a falta de convicção em uma escolha recente e as similaridades de Moreira com Drubscky foram as mais atacadas. Mas a causa é muito mais profunda e atinge a 99% dos clubes brasileiros a ponto de me fazer “suar” o hipocampo para lembrar quem não age assim.

O roteiro é conhecido. O time começa a cair de produção, duas, três, quatro derrotas seguidas. Uma eliminação no estadual, na Copa do Brasil, na Libertadores; uma derrota em clássico ou uma goleada sofrida. Toda a convicção dos discursos de chegada do técnico, “vamos fazer um trabalho de longo prazo”, “o nome dele foi bem avaliado pela direção”, vai pro ralo. A torcida cobra, a imprensa reverbera e, bingo!, mais um técnico demitido. Então começa a pressão para a contratação de um novo, decisão tomada muitas vezes em poucas horas. E em breve o ciclo se repete.

Aqui está o furo.

Pense em uma grande empresa em busca de um gerente de equipe, digamos a Coca-Cola ou a Microsoft. Alguém que possa comandar uma equipe de vendas ou de marketing, que vá liderar uma mudança de posicionamento das marcas no mercado, que possa gerir vaidades e concorrência interna, que consiga lidar com metas (reais, algo que não ocorre no futebol) e atingir objetivos, na pior das hipóteses, em médio prazo. Como essa pessoa chega ao cargo? Através de um exaustivo processo seletivo.

Análise curricular, uma, duas ou mais entrevistas, análise de perfil psicológico, dinâmicas de grupo, avaliação interna com a equipe a ser gerida pelo novo técnico. E então, após muita avaliação e concorrência, a empresa chega a um nome.

Quem não gostaria de treinar um São Paulo, um Grêmio, um Fluminense? Especialmente com os altos salários pagos aos técnicos, maiores que os da maioria dos executivos. No entanto, apesar da vaga seletiva e da grande oferta, a pressa dos clubes em tapar o buraco faz com que a vaga seja banalizada em 99% dos casos. Quem manda é a urgência, não a capacidade.

Então é mais fácil balizar a escolha em dois critérios extremamente subjetivos: A) o técnico em questão deu certo em outro clube ou B) o técnico em questão já deu certo aqui.

Oras, peguemos Enderson como exemplo — nada contra a pessoa, acredito que possa vir a ser um técnico de ponta, não é a capacitação dele que está em xeque. Enderson deu certo no Goiás. “Bem, se ele deu certo no Goiás, dará aqui”, certo? Não. O Goiás não é o Fluminense. Os elencos são absolutamente diferentes, a estrutura dos clubes é diferente, os objetivos dos clubes são diferentes. Ele dar certo no Goiás não o credencia a treinar qualquer outro clube, pelo menos não como ponto fundamental. O que o credenciará é como ele conduziu o trabalho, informação que só se obtém em um complexo processo seletivo.

E a letra B? Felipão é o exemplo. É um grande nome, já deu certo no mesmo Grêmio do qual saiu. E naquele tempo, como era o clube? Igualzinho ao Grêmio de hoje, mesmo elenco, mesma comissão técnica, diretoria, campo de treino, estádio e pretensões? E Felipão ainda é o mesmo — o que é negativo, pois ele tem de se atualizar — está melhor ou pior? Pensando no Grêmio, não em Felipão, seria a hora do clube gaúcho “abraçar” seu histórico treinador, que acabara de sofrer a maior humilhação da história do futebol? Os critérios foram emocionais.

Enquanto escrevo, vejo entrevista da diretoria do Fluminense constatando de que “é essa a cultura do futebol brasileiro”. É quase uma confissão, “estamos fazendo errado, mas todos fazem”. E como mudar o ciclo? Gastei neurônios e achei três exemplos, um que já pode ser avaliado e outros dois como experimento.

O Londrina está com Claudio Tencati há 5 temporadas. Era o técnico das categorias de base do Iraty, em 2010, quando o clube era comandado pelo atual gestor do Tubarão, Sérgio Malucelli. Malucelli assumiu o Londrina deixando Irati para trás e levou Tencati consigo quando o clube estava na segunda divisão do Paranaense. Ou seja, Malucelli conhece como Tencati trabalha há quase meia década. Com ele no comando técnico, o clube ganhou a segunda divisão local, foi campeão paranaense em 2014 e subiu para a terceira divisão nacional no mesmo ano. Sucesso em três temporadas em um clube de porte pequeno em uma cidade média — mas com tempo para tal. Acho que irá mais longe.

Ainda no Paraná, o Atlético errou muito no futebol em 2015. Tem um elenco claramente deficiente. Trocou três vezes de técnico. Chovem criticas. Então, como pode ser bom exemplo? Milton Mendes é a resposta. Técnicos não são o problema do Furacão, já que este são as peças. Claudinei Oliveira perdeu jogadores e o cargo e Enderson tapou o buraco. Mendes, no entanto, o mais desconhecido e questionado dos três, passou por esse processo seletivo de uma forma alternativa: foi o técnico da Ferroviária-SP no acesso da Série A2 paulista em 2015. O clube de Araraquara tem o suporte do presidente atleticano, Mário Celso Petraglia. Petraglia conhece Mendes há um pouco mais de tempo do que a semana que fez com que o Flu optasse por Enderson. Vai dar certo? Impossível dizer, mas sabemos que nem os melhores cozinheiros fazem feijoada só com ovos.

O São Paulo é a terceira experiência. Há tempos o clube paulistano quer um técnico estrangeiro. Quer mudar a filosofia de trabalho no Brasil — algo no qual o Inter está saindo na frente e que Palmeiras e Atlético-PR recentemente falharam — e insiste na procura por técnicos internacionais. Mal de saúde, Muricy Ramalho abriu mão do cargo em que foi bem sucedido por anos e Milton Cruz, funcionário de 20 anos do clube, está tocando. O São Paulo já ouviu não de Alejandro Sabella e Jorge Sampaoli e partiu para tentar Juan Carlos Osório. Já conversou com o técnico, tratou de valorizar publicamente o currículo de ex-jogador no Brasil e técnico na Inglaterra, EUA e Colômbia para mostrar que sabe o que busca. Se o quiser, terá que esperar pelo final da participação do Atlético Nacional no Colombianão 2015 — o que pode acontecer já em maio. Talvez ainda mais, pois o técnico tem um contrato para comentar jogos da Copa América. Se realmente está convicto que Osório é o nome para reconduzir o São Paulo ao topo do futebol brasileiro, esperar não será problema. Assim como não se poderá demiti-lo nos primeiros tropeços.

Ao se fazer a análise correta daquilo que se quer e não se render ao imediatismo, os clubes brasileiros podem mudar essa cultura, suportar tropeços e valorizar esses cargos únicos. Do contrário, teremos uma troca por rodada em todo Brasileirão até o final de nossas vidas.