Fiquem, Estaduais! (Mas melhorem…)

Taça do Paulistão, único que ainda vale a pena nos moldes atuais

Os estaduais começam neste sábado!

…e a empolgação do torcedor nem de longe aparenta a da frase acima. Vivemos um tempo em que os grandes eventos são mundiais. Os cinemas brasileiros irão transmitir o SuperBowl 50, decisão do futebol americano; se você ligar a TV agora, verá Messi, Cristiano Ronaldo, Ibrahimovic ou Levandowski em algum canal. É MMA, tênis, NBA (valeu, Kobe!), é evento de alto padrão que não acaba mais. Em meio a tudo isso, teremos o início dos estaduais pelo Brasil.

A Primeira Liga brasileira estreou com clássicos do Brasileirão e bons públicos, e deixou na cabeça do torcedor uma certeza: pra que Estadual? Se você é de São Paulo, talvez isso não se aplique — e falaremos mais na sequência. Mas após acompanhar jogos de um ‘Brasileirinho’ no meio de semana, enfrentar aquele time do interior que se juntou às pressas pode não parecer tão atraente.

E é por isso mesmo que os Estaduais precisam seguir existindo. Porém, não com o formato atual.

Os clubes do interior do Brasil são a base do (outrora melhor, mas ainda) bem sucedido futebol brasileiro. Dão emprego à milhares de profissionais, dão oportunidade aos jovens talentos, uma vez que nem todos são tão bem avaliados na primeira vez em um grande clube. Movimentam as cidades pequenas e médias, são oportunidade de entretenimento para seus habitantes. Fomentam rivalidades locais e boas histórias. Ignorar isso, ou querer acabar de vez com esse ciclo, é tão criminoso quanto manter os grandes clubes jogando um campeonato deficitário.

Há muito que se diz que os Estaduais devem abrir mão dos grandes e se tornarem divisões menores do Brasileirão. Jogariam uma espécie de fase regional durante o ano todo, obtendo classificação para o ano seguinte em alguma divisão nacional — quase como é hoje. Mais que a vaga, o essencial é manter a atividade pelo ano todo. Atualmente, clubes de cidades como Santa Maria ou Uberlândia, de porte médio e com boa renda per capta, jogam de janeiro a maio e, se não forem bem sucedidos — em campeonatos nos quais concorrem com as grandes forças de seus estados — ficam os outros sete meses sem atividade.

Um bom exemplo está sendo dado na Federação Paranaense. Talvez seja o melhor caminho para que se continue com as grandes marcas e ao mesmo tempo haja fomento na formação de atletas e geração de empregos. A partir de junho, os clubes do interior garantem calendário com competições S19 e S23 — a última, já no nível profissional. É possível manter então uma comissão técnica fixa até dezembro e renovar com a maioria dos atletas. Além da disputa regional entre cidades vizinhas, há o interesse dos grandes Atlético e Coritiba em disputar a competição.

Ainda não é o ideal; o campeonato deveria seguir o ano todo, substituindo o Estadual, com os grandes jogando com suas equipes reservas — como faz o Real Madrid Castilla, por exemplo — e ao final do ano, o campeão ascende à Série D. Enquanto isso, os clubes já nacionais (aqueles com vaga nas divisões do Brasileirão) já estariam competindo nacionalmente, seja pela Liga ou no formato atual.

São Paulo é a exceção por uma razão óbvia: dinheiro. Nem mesmo o Rio mantém o charme e a competitividade de outrora. Outros centros menores menos ainda. Mas o Paulistão consegue ser rentável para os grandes (a TV pagará mais que a Libertadores, por exemplo) e para os pequenos. O Botafogo tem lucro ao receber o Palmeiras em Ribeirão Preto, enquanto que para o Corinthians não é o pior dos cenários encarar o Bragantino, um time da Série B nacional, em casa. Não à toa, clubes de menor expressão como Santo André, Grêmio Barueri ou São Caetano, e mesmo as tradicionais Ponte Preta e Portuguesa, a despeito de terem menos renda e não serem badaladas pela mídia, conseguiram disputar a Série A nacional pelo menos uma vez nos últimos 10 anos. Paraná Clube e Juventude, forças regionais, estão fora há algum tempo; a torcida gigante do Santa Cruz esperou 10 anos para voltar à elite, enquanto que Vasco e Botafogo têm se alternado na Série B.

Atacar o Estadual sem enxergar esses fatores é o erro do momento. O que precisa mudar é o formato, a área de interesse. Se antes o corintiano atravessou o campo de joelhos por 1977, e passamos a reconhecer grandeza em outros estados pela fila de taças locais, hoje o que vale é o nacional. Mas na miúda, no trabalho de formiguinha, o futebol do interior do Brasil precisa e merece de uma reformulação total que lhe permita reviver seus grandes dias, mesmo que recomeçando da menor divisão, em confrontos regionais, encarando a realidade estabelecida com um século de disputas — o que não é justificativa para seguir com esse modelo atual engessado.