José Trajano e o Status Quo do futebol brasileiro

José Trajano é um cara que eu aprendi a admirar. Talvez vocês não saibam como é, mas houve uma época em que os jornalistas se dividiam entre “a ética e o dinheiro” (e nenhum estava certo), e eu sempre preferi o caminho de Trajano, por isso ando vendendo a janta para pagar o almoço.

Preferi, até essa semana, quando ele considerou que o goleiro Danilo Fernandes, do Sport Recife, não era bom o suficiente para a Seleção Brasileira por “jogar em um time pequeno”.

É um direito dele, José Trajano, achar que o Sport é pequeno.

Mas Trajano, um dos principais jornalistas esportivos do Brasil — talvez uma das raras cabeças pensantes no esporte no País — não tem o direito de falar isso em cadeia nacional.

Trajano é América carioca. Declaradamente. Uma coragem que eu, narrador, não tenho em um meio tão passional. O máximo que sabe sobre mim (quem?) é que sou paranaense e, sim, torço para um time do Paraná, algum desses quatro que estarão nas principais divisões nacionais em 2016. Esse luxo, de poder declarar sua torcida — e ser julgado com a mesma régua - cabe aos grandes, como Trajano.

Mas, paradoxalmente à escolha do time dele, uma declaração destas de um ícone como José Trajano, só alimenta o Status Quo do futebol nacional. Onde o grande permanece grande e o pequeno permanece pequeno. Onde Sarney é senador por Maranhão e Amapá, mas boas idéias não sobrevivem aos velhos vícios.

Moro em SP há três anos e sei que pouca coisa (nada) é relevante do Tietê pra lá. Uma delas é não reconhecer em Danilo Fernandes um jogador de Seleção apenas por que não joga em Flamengocorinthianssãopaulopalmeirasvasco ou outro que não seja destes. Outra, é desconsiderar que Jefferson, do Botafogo, passou o ano jogando contra equipes de segunda linha do futebol brasileiro e se manteve na Seleção. Por ser do Botafogo. Por ser um grande goleiro, mas, se fosse do Sport… na Série B então…

Trajano não atentou contra Recife; atentou contra todas as renovações de contrato que Danilo, Sport, Atlético Paranaense, Coritiba, Bahia ou até mesmo o Cruzeiro queiram fazer. Ok, o Cruzeiro pode ter um nível a mais, mas nem o bicampeonato brasileiro fez alguém lembrar de Fábio para a Seleção. Se sou Danilo, não renovo; prefiro jogar onde posso ir para a Seleção, onde agradarei mais. Quem vai me julgar?

Não vou me ater ao tamanho do Sport, um clube campeão brasileiro, da Copa do Brasil, com seus mais de 3 milhões de torcedores (um Uruguai) e dono da maior média de público do Brasileirão em 1998. Isso é bobagem. Me atenho sim a importância de uma declaração boba como essa. Comum, aliás, entre jornalistas que vivem em SP-RJ, mas falam para todo o Brasil.

Se queremos moralidade na Seleção, se queremos que um contrato já revelado cujo teor compromete às convocações por interesses seja derrubado, como podemos questionar a qualidade de um jogador só por que ele atua longe do maior centro de mídia do Brasil?

Como podemos dizer que a CBF “só convoca por interesses” quando um dos grandes nomes do jornalismo esportivo brasileiro assina embaixo de que só se pode convocar jogador dos “grandes”?

Mais: como é possível dizer que convocar Jefferson é “ok”, enquanto esse enfrenta equipes de segunda linha do futebol nacional, tendo Danilo Fernandes, na análise do próprio Trajano, jogado em um “time pequeno” e sendo destaque contra os melhores do Brasil, em desvantagem (pequeno, não?), se consagrado destaque? Contrasenso?

Não sei se Danilo pode ou não ser convocado. Acho que pode.

Tudo o que você leu até aqui tem a ver com Status Quo.

Em estar num determinado lugar, agradar determinado segmento, vestir-se ou comportar-se de um determinado jeito esperado para se enquadrar em um padrão. Um Status Quo que é alimentado semanalmente por conceitos como esse. Que vive o Brasil dos anos 70 como o Brasil de hoje, onde a informação está ao acesso de todos e o selo “Brasil” não pode ser só um localidade, mas sim uma referência de conteúdo.

Mas a luta pela manutenção do Status Quo é dura. Às vezes até involuntária. E está presente nas principais cabeças da comunicação brasileira.