Vexame é “emocionalizar” a queda do Corinthians

A queda do Corinthians na Libertadores 2015 está sendo tratada por boa parte da imprensa brasileira como “vexame”. Uma análise emocional, que reflete muito do que somos como imprensa e até como povo. O problema real não é abordado: ao sentenciar a vitória do Guaraní paraguaio como vexame corintiano, exalta-se o emocional e esquece-se de tratar as razões efetivas da decepcionante eliminação.

Vexame é quando você tem vergonha de sair de casa; decepção é quando o resultado que esperávamos não acontece. Desde sempre há a tendência do brasileiro em se fazer chacota do que não conhece bem. Talvez, se fosse o Guaraní o Cerro Porteño, sequer se pensaria em “vexaminar” a queda. O Cerro tem camisa — mesmo nunca tendo vencido uma Libertadores — e o brasileiro aceitaria mais a derrota. Mas não. É o Guaraní, time que ninguém conhece, que carrega o nome do campineiro campeão brasileiro, este que anda combalido e só é lembrado para se fazer chacota das más atuações do Palmeiras, o “Guarani da Capital”. A chacota contagiou a todos os que menosprezaram os paraguaios.

É fase de oitavas de final da Libertadores, ninguém está aí de graça. O Guaraní foi fundado em 1903 (mais velho que o Timão, portanto), tem 10 títulos nacionais, o último em 2010, e nos últimos cinco campeonatos ficou quatro vezes entre os três primeiros. No campeonato 2015 está disputando a liderança ponto a ponto com o já citado Cerro. Pra bobo, não serve.

Há poucos dias, no Facebook, o colega do SporTV, Lédio Carmona, postou um vídeo em que britânicos analisavam a conquista da Premier League pelo Chelsea. A análise dos ingleses passava da remontagem do elenco para o uso de novos talentos e a leitura tática do time, que foi redesenhada em temporadas, através de contratações pontuais nas quais o Chelsea gastou menos que seus quatro principais rivais: os times de Manchester, Arsenal e Liverpool. Apontamento técnico e embasado. Prático, como são os ingleses.

Ao se rotular como “vexame” a surpreendente queda do Corinthians, a imprensa nacional banaliza o tema e busca uma bruxa para queimar e executar, mantendo o sistema em vigor. O centenário Corinthians já caiu para a Série B e foi goleado impiedosamente um sem-número de vezes mais vexatórias que essa derrota na Libertadores. Mas o brasileiro parte para o emocional, querendo achar um único culpado, para poder execrá-lo e não fazer a análise correta da situação. Talvez venda mais jornal.

O que temos de pensar é como uma equipe com orçamento tão modesto consegue fazer frente ao milionário Corinthians? Mais: não é o único time de menor orçamento que bate nos brasileiros na Libertadores. Isso tem sido frequente. Será que todos não nos empolgamos demais com as atuações do Corinthians contra um São Paulo ainda em formação (segue nessa), um San Lorenzo desmontado e um Danúbio de notória deficiência técnica? Quando se deparou com desafios reais, enrosocou em Santos e Palmeiras em casa e só não caiu para a Ponte Preta porque contou com um erro de arbitragem.

O elenco do Corinthians segue, no papel, o melhor do Brasil. Em um campeonato regular como o Brasileirão, deve chegar na frente. Tite ainda é o técnico mais bem preparado entre os brasileiros. Ao emocionalizar o tema, rotular como vexame uma inesperada queda — que afinal é a graça do futebol, a surpresa — empurra-se a verdadeira análise com a barriga à espera da nova manchete que mexa com o torcedor, mas não o faça pensar.

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