Minha Primeira Carta.

Eu me lembro das nossas tardes sentadas na varanda. 
As cadeiras de balanço, o calor e o sol que parecia tão distante não fosse o arder avermelhado que deixava na pele. 
- No Nordeste é quente. Mas, venta. 
Bem diziam sobre esse vento que é brisa.
Nosso silêncio olhando pro céu, com o olhar disperso tentando perceber o mundo e ao mesmo tempo, curtindo muito a capacidade de sentir o conforto com o nada. 
Juntas até o nada poderia ser partilhado entre sorrisos.
A gente caminhando na orla de Olinda… Você me contando todos os seus sonhos. 
Aquele mar soava ter mais vida e um misticismo quase tão reluzente e encantador quanto o seu… Que arrasta sem que a gente perceba que nos envolveu.
Que saudade dessa viagem! Esse lugar onde parece existir vida, mas não o tempo… Cada canto uma cena de filme. 
Os bares. A Rua da Moeda… O Carnaval que tem outra vida em Pernambuco. Acontece antes mesmo de acontecer! 
A festa que é a vida noturna do Recife Antigo!
Me vem tão forte a imagem do dia que você chegou e eu fui te buscar no aeroporto.
Era tudo tão novo e quase como se eu esperasse outra versão de você. 
Chegou como quem chega em casa depois de uma longa passagem por outro lugar. 
E assim que a gente pisou fora do aeroporto, aquele bafo de calor tomou conta do ar, você levantou as mãos pro alto e disse:
- Esse é o meu lugar!
Eu não sabia como agir no momento. Apenas sabia que ele ia me marcar. E agora retomando essa reminiscência — eta palavra bonita!
Quase me perco a chorar. 
Sinto sua falta minha amiga e ás vezes com quase ninguém eu quero falar.
Os dias se passaram e por vezes devido ao excesso de calor, pareceram se arrastar. Senti saudades da minha casa ou mais da sensação do meu lar.
Sempre quis me lançar no mundo, mas essa viagem foi meu primeiro vôo e assim que me despedi do meu pai no aeroporto, me senti feito criança soltando a mão dele e uma lágrima escorregar.
No avião eu me sentia tão nova e ao mesmo tempo sozinha… Sozinha no mundo. Meu mundo.
Assim que decolou e vi São Paulo ficar pequena me senti grande diante de uma rotina que me engole, me machuca, me liberta e me assusta.
Desejei que meus pais pudessem viver comigo aquilo. Me senti infantil.
Hoje quando retomo todas essas cenas, tudo parece ter sido um sonho, não poderia ter sido melhor.
Sinto bastante sua falta e por ora me revolto questionando sobre a existência desse tal de destino e porque os nossos tomaram rumos dando espaço a distância física.
Hoje eu sei que não há dignidade maior numa relação que não seja respeitar as escolhas uns dos outros. Meu lugar, seu lugar… O que somos é outra coisa.
Eis que a monotonia dos dias me consumiram e decidi escrever um diário.
Como bem me conhece não foi algo que surgiu do nada. Me inspirei nas leituras recentes e assim que descobri os Diários do Andy Warholl, me senti inspirada a escrever o meu. 
Claro que a simplicidade da minha vida nem de perto se compara aquele universo, década de 60/70 repleto de glamour, drogas, de badaladas socialites e futuras celebridades/artistas, fazendo arte sobre suas próprias fucked-up vidas… — E que eu inclusive, amaria ter vivido rs!
Mas, durante essa leitura que por vezes, trazia relatos aparentemente fúteis, a riqueza de detalhes me impressionou. Percebi que a partir do momento que o Andy se colocou a registrar essa rotina caótica e cheia de jantares, regados de fofocas e gente bilionária querendo muito, vivendo pouco… Ele, se colocava a parte como um observador.

Me pareceu um exercício muito peculiar me distanciar da minha própria rotina, olhar à minha volta, os personagens que fazem parte disso, direta/inretamente. Podia ser uma forma de tornar menos desagradável esses 5 dias da semana nas quais passo maior parte do meu tempo, tentando controlar quem eu sou para ter as contas pagas ao fim do mês.
E de fato, vem sendo muito proveitosa a experiência. 
Aproveito para colocar sempre o que ando lendo. Como me toca. Incrível a dimensão que a gente ganha quando se deixa ser tocado por algo.
Ando lendo muito como havia lhe dito. E de tudo. E algumas passagens me marcam tanto que as repito em voz alta independente de onde estou.
Mas, hoje lembrei de você falando sobre essa minha necessidade de estar envolvida com algum universo. Algo vindo da literatura, do estudo como um alimento.
O quanto isso era rico em mim. 
Me ocorreu de que nada me valem essas referências na ponta da língua, se elas não me cabem e não me bastam só pra mim.
Fico inquieta querendo partilhar delas e acabo deixando que escorreguem vira e mexe, com quem não tenho um laço mínimo de sensibilidade e que as recebem como vômito.
E mais uma vez sofro. Sinto sua falta.
Ta aqui minha primeira carta. Talvez minha letra não seja mais a mesma. E a ânsia para que você leia tenha ganho espaço.
Não foi como o prometido, aquela carta que atravessou algum espaço. 
Mas, não é mesmo sobre meu lugar ou seu lugar, porque o que a gente é, continua sendo outra coisa.