Nesses dias que sorrir parece pecado.

Tão estranhos esses dias… que sorrir parece pecado.
Me senti confortável na minha rotina. 
Desde o atraso diário, até as roupas velhas e o cabelo despenteado.
As pessoas, estranhos conhecidos: do ponto de ônibus, do terminal, do metrô.
O vento entrando pelas janelas do ônibus, as conversas alheias, sobre o fim de Velho Chico, a Camila que deixou de tomar conta do grupo de jovens, revoltando a pastora, sobre o Felipe que mais uma vez foi assaltado: — Ele sai de casa todo dia com o celular na mão. Dá nisso! Parece que o cara tava com uma faca.
Todo o céu que cobre as copas das poucas árvores e o alto dos edifícios, nas ruas pelas quais caminho todos os dias.
Trabalhei concentrada no mais simples gesto de abrir uma planilha.
Almocei satifeita. Dormi. Voltei ao trabalho.Comi um pão de queijo com café de tarde. Senti calor e sai do prédio aliviada pela brisa.
Tudo me coube sem agonias.
Eis que quando fui sorrir senti culpa.
Me pareceu um gesto tão egoísta… 
Sorrir com a minha vidinha dentro desse pequeno espaço de tempo que me pareceu reconfortante, feliz.
Enquanto tenho amigos e desconhecidos desempregados, trancando a faculdade, se desesperando para sustentar suas famílias, abortando sonhos.
Com um processo de impeachment sobre o qual estamos a mercê, nos sentindo ameaçados. Nós e nossa pequena liberdade democrática que data já tão pouco.
Como eu pude querer sorrir nesses dias que a gente se perde em tentativas de orações frustradas por não saber nem porque ou pra quem se reza.
Nesses dias que sorrir parece pecado quando a nossa geração é uma das mais depressivas e, ansiosas…
Queremos tudo, mas nos sentimos abraçados pelo nada. 
Nada que basta pra fazer a gente correr atrás de tudo que quer.
As redes sociais, as fotos do insta, as decorações que tentamos copiar do Pinterest… Todo esse espaço que é extensão nossa, fazendo com que a gente fique triste por ser difícil sentir nas palmas das mãos esse mundo, lindo, colorido e cheio de… de… vida!
Tão estranhos esses dias… Que a gente percebe que não importa qual seja a crise, estamos todos beirando a loucura.
Não importa questionarmos o sistema capitalista porque somos filhos desse ciclo que nos ensinou a moldar quem somos em prol do que temos. 
Não trata-se apenas de consumir marcas x ou y. Estamos fadados a ser o que queremos conquistar, seja uma formação acadêmica, uma viagem, um carro, uma casa.
Conquistas que envolvem dinheiro, que podem se transformar em pregração de meritocracia, em empreendedorismo motivacional, em dívidas com juros altos, choros, fins trágicos de famílias, ou simplesmente em sorrisos que nesses dias estranhos, vão parecer pecado.
Cheguei a conclusão que talvez nem tudo me coube sem agonias. Sorrir pareceu pecado.

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