Página de um diário

Rasguei hoje a página que escrevia em meu diário para fazer um tratado público comigo mesma.

Faz um tempo que as coisas cabem onde entram como pedras e, a vida adulta parece um interminável ato de cobrir a pele que me veste com amontoados de resiliências. E me sentir anestesiada.

Eu chorei escondida depois de 11 anos a morte da minha tia, enquanto visitava minha vó e olhava o retrato na sala. A luz do sol tímida, entrando um pouco, mostrando ser dia. O frio daquela casinha tão simples e melancólica.

Arquivo Pessoal

Senti culpa por pensar que a gente tenta não esquecer os entes que morrem, que é estranho que a vida aconteça mesmo sem eles, que é estranho que a vida vai continuar acontecer sem a gente um dia.

Depois de alguns meses, minha vó faleceu, vi meu pai chorar pela primeira vez, em meus 24 anos. Olhei para ela morta.

Parecia que, durante aquele um mês de internação dela, demandava uma força familiar que eu nem imaginava ser possível existir. Cada dia de visita uma montanha russa de sentimentos nos conduzia a acreditar ou não que ela estava ora melhorando, ora piorando…

Em alguns momentos que ela recobrava a consciência, falava sobre desistir. Quão desesperador é perceber que nosso corpo e a nossa mente, mesmo juntos, dão caráter distintos a vida. Eu ficava me perguntando, é o corpo ou a mente que carrega esse instinto humano ? Algum deles luta mais pela própria vida que o outro?

E sentava na sala de visita, vendo outras pessoas chorarem por outras vidas. 
Enfermeiros, medicando e dando banho nos pacientes, falando sobre o que fizeram no final de semana… Quando é que exercer um trabalho em determinada area, faz com que a gente relativize tanto situações à demandas corriqueiras e diárias?

Saia, sempre com a sensação de insuficiência para lidar com a morte, com o sofrimento do meu pai, com a ideia de que um dia, serei eu a sofrer por ele.

Passamos todos juntos por maus bocados e, eu queria poder me expressar melhor, oferecer um abraço e tirar da redoma a angústia daquele afeto apertado, sem espaço pra ficar, sem coragem para sair.

Eu o olhava imaginando toda essa infância distante, da qual ele pouco falava e do tanto que devia estar sentindo. Mas minha melhor maneira de amá-lo naquele momento, me pareceu respeitar seu espaço de luto.

Arquivo Pessoal

Após o enterro, as coisas nas caixas me deixaram uma marca de profunda tristeza, não sobre ela em si, mas sobre a ideia do que havia sido uma existência, significar agora, aquele amontoado de caixas e coisas.

Porque a gente parece limitar a própria vida no acúmulo de coisas que supostamente dão significado para quem a gente é ou foi ?

Holerites, roupas, sapatos, comprovantes de contas de água, luz, brinquedos antigos guardados, livros que talvez nem foram lidos…Em que momento isso pareceu mais importante e a gente não pode se dar conta?

Eu me revoltei com aquelas caixas, como se fosse uma afronta que alguém pudesse olhar aquelas coisas e, fazer disso uma ideia de quem minha vó foi, como viveu, oportunidades que teve ou não, como pagava as contas e criava os filhos. Me pareceu indigno com alguém, fazer de coisas inanimadas, o significado de uma vida.

Como se as coisas, fossem mais que o calor humano da vida, a palavra dita no seu modo de dizer simples, com sotaque, com gestos e aceno de mãos delicadas e unhas feitas e cabeça baixa.

Arquivo Pessoal

Vida e morte, coisas e espaços.
Ainda me sinto tão desajeitada, procurando em que direção meu movimento alinha-se ao mundo.

Decidi publicar o que seria uma página do meu diário, por conta de uma súplica intermitente…
De não calar essa emoção não dita. 
De fazer dessa pequena narrativa pessoal, a continuação do meu único projeto: a construção de mim mesma.

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