relatos de uma desmemoriada

Meu dia começara acordando atrasada, pois me esqueci de programar o despertador. O céu era de um cinza nímbico e eu esqueci meu guarda-chuva em casa. No caminho, lembrei que tinha esquecido de responder àquele e-mail e, quando cheguei ao trabalho, esqueci novamente. Minha chefe me pergunta “Nara, onde está aquele documento que te entreguei?” e eu fico emudecida, os olhos distantes, pois preciso de alguns segundos para me lembrar do que fiz com o bendito papel.
No final de semana, fiz uma lista de compras de mercado e a esqueci em cima da minha mesa (e depois fiquei andando por todos os corredores para me lembrar de tudo que precisava pegar; me senti ridícula).
Ainda que eu tenha uma agenda, um planner diário, post-its espalhados por aí e notas autoadesivas do Windows, não consigo me lembrar de tudo o que devo fazer. Esqueço compromissos e tarefas como ninguém. Me lembro do aniversário daquela pessoa, mas esqueço de dar os parabéns. Esqueço de um favor que foi pedido a mim. Preciso que me expliquem algo duas vezes, pois não me recordo da primeira explicação.
Começo a me preocupar com minha saúde mental. Consigo visualizar em minha mente a cena, a médio prazo, do neurologista me entregando o terrível prognóstico de Alzheimer — resultado do qual eu me esqueceria momentos depois sem a medicação necessária.
Desesperada, começo a procurar no Google qual a causa do meu problema e o que poderia ser feito. Seria falta de vitamina B12? Déficit de atenção? Apneia obstrutiva do sono? Transtorno de ansiedade? A cada artigo lido, a preocupação aumenta. “Deveria marcar uma consulta”, penso, mas óbvio, eu não me lembro onde deixei a carteirinha do convênio médico.
Seria cômico se não fosse trágico.