Saudades de odiar outras coisas…

Lembra quando a gente odiava quem faz barulho para tomar sopa? Quem comenta o filme alto no cinema? Come chiclete como se quisesse chamar a atenção para ser resgatado numa ilha deserta? Palita os dentes e coleciona fiapos gordos de carne em guardanapos abertos? Quem boceja gemendo? Demora oito vidas para escolher ervilhas no self-service? Fala futilidades gritando no viva-voz do celular em sala de espera? Quem solta pum no elevador? Éramos felizes e não sabíamos o que vinha pela frente.

Lembra quando a gente tinha raiva de quem assoa o nariz à mesa em restaurante? Fala de boca cheia e um meio grão de arroz vem parar em nosso antebraço? Usa tanto perfume que precisamos passar o resto da semana tratando do fígado? De festa em casa de rico que quanto mais rico menos serve comida de verdade? De médico que te deixa esperando 3 horas? Bons tempos.

Lembra quando nossos maiores inimigos eram os folgados que furam fila, vão pelo acostamento, a tia perguntando dos namorados, o tio do pavê? Casais que andam de mãos dadas bem devagar na rua ocupando a calçada toda fazendo você ficar andando atrás com passo bem devagar? Vendedoras de lojas que voce fala que esta dando só uma olhadinha mas que mesmo assim ficam andando atrás de você? Até esses tipos eram boas pessoas.

Estamos tão ocupados em abominar os eleitores do Bolsonaro que esquecemos da nossa velha e boa lista de repelidos. Que saudade de odiar essas pessoas maravilhosas! Em tempos de “o coiso não”, até quem separa o lixo reciclável, mas trata mal o porteiro desde que não seja eleitor do Pocketnaro, se tornou digno de “opa, como vai?” no elevador.

Na escola eu tive um professor de literatura chamado Sinval e, meu Deus, como esse homem me destratava! Era bullying. Era assédio moral. Escroto dos infernos! No prezinho, tive uma professora chamada Lene (acho que é isso) e ela gritou comigo na frente da sala falando que minha vaca não ia pra exposição porque tinha ficado muito feia. Na escola tinham umas meninas que faziam bullying achando que eu usava sutiã de enchimento porque “nenhum peito cresce tão rápido” Enfim, tudo gente que merecia estar presa eternamente em uma montanha-russa que travou quando estava de ponta-cabeça e no escuro, mas, se não forem votar no coisa-ruim, periga até a gente retomar uma amizade.

Lembra quando nossa irritação era com o arroto do tio sem noção que tomava Coca-Cola no gargalo? Nosso nojinho era de gente passando fio dental em público? Nosso incômodo era porque o povo usava camiseta com o logo Abercrombie & Fitch gigante e em relevo peludinho ou polo com número gigante e cavalo? Nossa, como eram sujeitos da melhor espécie! Aff, até fã do Maluf se tornou parente querido. Vivemos tempos de barbárie!