02/09/2018 Museu Nacional
Sobre o museu eu só vou escrever isso:
Ontem a noite eu estava tomando um daqueles banhos demorados conversando com Daniel, meu namorado, quando meu irmão mais novo de 11 anos bate na porta.
Ele não se dirige a mim.
Chama o Daniel, conta rapidamente o que viu na televisão e sai. Daniel sai junto, diz que já volta. Como eu estava no chuveiro não ouvi nada.
Daqui a pouco volta o Yuki, entra no banheiro e senta no vaso. Olha para mim triste quase que me preparando para o que vai dizer. Suspira.
- O Museu Nacional, aquele da Quinta da Boa Vista, está pegando fogo.
Era para eu ter ficado chocada com o fato. Mas a expressão de Yuki me chamava mais atenção. Ele estava destruído, sentado no vaso de cabeça baixa.
- Eita, Yuki… Como isso foi acontecer? E os bombeiros? Não conseguiram chegar a tempo?
- Maninha, na TV falou que não tem mais jeito, acho que disse que só tem a estrutura do museu e que vai cair.
Quando eu entendi o tamanho do desastre ainda me espantava a carinha do Yuki. Mas por que diabos um garoto de 11 anos está tão triste por conta do Museu? Yuki noticiou todo mundo da casa, interrompeu minha mãe de uma live, tirou Daniel do banheiro e depois foi lá me contar. Fez questão que todos soubessem que o Museu estava morrendo. Eu ainda não entendia porque aquela notícia tinha me chegado no tom mais solene possível da pessoa mais nova daquela casa.
Ao mesmo tempo que estava curiosa para saber que importância tinha o museu na vida de Yuki para ele estar tão partido, eu não queria deixá-lo mais frágil com aquela situação, então evitei falar mais e questionar a criança, mas ela mesma acabou transbordando aquilo tudo.
- Eu lembrei que quando eu fui lá eu era muito pequeno, eu vi meteoro, eu vi dinossauro, eu vi múmia. Eu pensei “que legal um meteoro! Que legal, um dinossauro!” Mas eu não falei nada disso. Eu queria ter falado. Imagina como seria eu voltando lá com a minha cabeça de agora…
Foi assustador ver meu irmão daquela forma. Falando “a minha cabeça de agora” com 11 anos. Ter visto o impacto de um museu para uma criança. Foi ali que eu percebi o que nós perdemos.
O que nós deixamos acontecer. Eu gosto sempre de frisar isso aqui: é tudo responsabilidade nossa. Gente com fome, moradores de rua, tráfico, criminosos, educação, saúde, Cultura. Um museu pegando fogo é culpa nossa também.
Dói muito perceber que perdemos a chance de que uma criança percebesse que é pequena não pelo seu tamanho, mas pela grandiosidade das coisas, da história!, que estava exposta ali no museu.
Perdemos a chance de nos espantarmos com nossa pequenez também.
Até agora nenhuma imagem do fogo, dos destroços, me foram tão doloridas quanto escutar meu irmão de cabeça baixa dizendo que queria poder voltar para lá com a cabeça de agora.
Saber o impacto que um museu teve na vida de uma criança é perceber a sua grandiosidade e importância.
Dói muito saber que o fogo que vimos ontem já havia sido ateado há muito tempo.
E que deixamos.
E que não fizemos nada.
