Funk

Inspirada pelo preconceito de uns e ignorância de outros resolvi fazer um textão sobre o depoimento de Jorge Vercillo sobre as músicas que fazem sucesso hoje em dia.

Primeiro, como muitos se amparam na democracia gostaria de deixar aqui algo que não é simplesmente minha opinião: a democracia não está aqui pra defender seu preconceito muito mal disfarçado de opinião, democracia não te dá direito de Invisibilizar e desqualificar a cultura de ninguém só porque você não consome.

Não vou nem falar de quão cômico foi o discurso de música sem letras de qualidade e sem harmonias e melodias de qualidade saindo da boca de Jorge Vercillo, vou falar mesmo é de quanto esse discurso é perigoso.

Primeiro vamos relembrar porque relembrar é viver. Vocês conhecem a história do samba? Vocês sabem das n tentativas de criminalização que aconteceram? Vocês sabem o que eles diziam na época? Que era promíscuo, que era música para se dançar colado enquanto simulava sexo, que era feito só para dançar e que não acrescentava nada aos ouvidos. Um gênero que hoje é elitizado foi antes alvo de muitas críticas preconceituosas e hoje é entendido como nossa cultura e tem seu espaço como música de qualidade conquistado.

A questão é, o que mudou? O que fez o samba ser aceito, o que fez ele ser entendido como “cultura brasileira” e o que antes dificultava isso? Simples, sempre foi uma dificuldade para a classe dominante aceitar a cultura periférica como uma cultura que fazia parte de seu povo, isso porque sempre foi um problema para a classe dominante entender os periféricos e marginalizados como povo. Mas somos. Fazemos parte do Brasil e por infinitos problemas de desigualdade a periferia é lugar onde estão a maioria dos nossos.

Hoje o que acontece com o funk é a mesma coisa. Inclusive as pessoas usam o mesmo argumento de promiscuidade, ainda fruto de muito preconceito e de uma sociedade construída em cima do racismo. Hoje a música que mais se consome nas favelas é o funk e cada vez mais e mais cresce conquistando seu espaço. Não, não é problema de falta de interpretação.

É preconceituoso você se voltar para um gênero musical criado na periferia e culpar o público por gostar disso, muito bom que o funk e essa cultura esteja se espalhando e conquistando espaço, isso incomoda mas incomodou com o samba também.

Sempre incomoda quando a periferia de alguma forma ganha força e se está ganhando é mérito dela e dessas músicas serem contagiantes, as pessoas querem dançar e esse tipo de música que proporciona isso, as pessoas querem rebolar a bunda até o chão e não vai ser Tom Jobim que vai dar isso a elas.

Tem espaço para tudo, assim como você pode não gostar de funk eu odeio Jorge Vercillo.

Mas tem espaço para os dois e para o Chico, e para Tom e Vinicius e pra muita coisa.

O problema é quando seu discurso invisibiliza a cultura de uns, nega, desqualifica. Amigo, isso não é uma opinião. Você não é o cara que decide o que é cultura, você é só um cara cujo discurso agride e ofende, um discurso que rapidinho silencia e mata.

Opinião é gostar e deixar de gostar. Você pode escolher consumir outras coisas e isso não vai ser o problema. A partir do momento que você vem na cara dura dizer que funk não é cultura e tentar me vender isso como “opinião” eu posso ficar extremamente agressiva porque o seu discurso preconceituoso me agride e eu tenho ferramentas para me defender. Não vem tentar falar que “tá numa boa”, “que tudo bem eu ter essa opinião e você ter a sua” porque não tá.

Funk é cultura e isso não depende da sua opinião.

Nara Takimoto Camara

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se é pra pensar vou pensar alto, aí outras pessoas podem ouvir