Meu Relacionamento Aberto
Eu tenho um relacionamento aberto.
Eu tenho um relacionamento aberto mas ao contrário do que dizem para mim quando me surge a coragem de falar isso, eu não sou desprendida, desapegada e nem nada parecido com isso.
Inclusive, talvez eu seja a pessoa mais apegada que eu conheço. De bater o pé no chão e teimar quando minha mãe disse que era para eu ter outro professor de piano porque queria ter aulas para sempre com minha primeira professora, de ter chorado quando minha mãe não me deu alternativa. Mas que na terceira aula com o professor novo já havia sentido que não seria possível largá-lo. Em menos de um mês eu já sabia que sofreria quando as aulas acabassem. Esse é meu nível de apegada. Chorei todas as vezes que tive que mudar de professor.
Também não sou “desconstruída”. Sinto ciúmes, sou insegura, sinto inveja, tenho medo. Acontece que essas são coisas terríveis de se sentir e eu não gosto que, além de sentir, eu tenha que ser controlada por elas, tenha que impor minha irracionalidade e fazer com que meu parceiro seja limitado por algo que, se eu for parar mesmo para analisar meus motivos para sentir isso, é doentio.
Por mais que eu sinta essas coisas horríveis e não tenha conseguido parar de sentir, percebi que o que eu estava exigindo daquele que está comigo era muito, eu estava sendo uma prisão. Mas mais esquisito que isso, eu queria ser aprisionada.
Eu adoro a monogamia. Eu fiz meu papel, assisti todos os filmes da Disney, fui criada pelo casal monogâmico mais feliz que eu vi. Para mim era a verdadeira ideia de amor. Como não querer uma pessoa que tenha só olhos para mim, não é mesmo? Como não querer aquele romance que eu vi em todos os filmes? Para mim não existia amor em relacionamento aberto, porque a ideia que eu tinha de amor estava totalmente atrelada a prisão que eu queria que a pessoa fosse. A prisão que eu aceitaria de bom grado porque amaria de verdade e quando a gente ama é assim.
Mas percebi que minha utopia não dava certo nem na minha cabeça de pisciana. É claro que meu namorado sentiria atração por outras pessoas, porque eu mesma sentia, o que eu fazia era saber dessa vontade e pedir para que ele não concretizasse, porque eu sofreria.
O que me assusta é isso parecer muito normal, natural. A gente não para nem para questionar.
Por que? Por que me dói tanto ver uma pessoa que não, não é minha, mas que eu amo muito, fazendo o que quer?
Por que essa falsa sensação de que posso controlar o outro? Por que pensar que ele tem que reservar o corpo para mim quando o corpo não é meu?
Só porque eu tenho medo e não sei lidar com minhas próprias inseguranças? Por que assim ele pode gostar mais de alguém do que de mim, encontrar alguém melhor que eu e agora que ele está namorando comigo ele tem que ficar comigo mesmo eu sendo uma merda? Sim. Porque ele tem que se contentar comigo e não tem o direito de ser feliz com mais ninguém. Porque eu sou uma escrota. Só pode.
Eu não consigo me sentir bem ouvindo os meus motivos. Eles não estão me convencendo. Eu não quero ser essa pessoa.
Eu quero me esforçar todos os dias para ser a melhor pessoa que posso para a pessoa que estiver comigo. Que ela possa viver o que quiser e que escolha voltar. Porque quer voltar. Porque eu faço ela sentir isso. Isso para mim, por mais esquisito que soe, parece o que é certo.
Percebi que o que eu gostaria de ser não era o que eu estava sendo e que eu poderia viver uma vida inteira me restringindo aos meus próprios medos e reconhecendo o amor somente como uma forma de aprisionar, ou que poderia enfrentar todas essas coisas terríveis que eu sinto mas expandir minha visão. Sentir algo maior e que eu não tinha sentido.
Foi pensando assim e estando em paz com meu relacionamento e muito feliz, que decidimos abrir.
Durante um tempão aberto nós não ficamos com ninguém. Porque é isso, não existia essa necessidade. A gente não tinha nem essa vontade.
Não é estar solteiro, não é caçar gente por aí.
É saber que a gente tem a liberdade de fazer o que queremos com os possíveis desejos e sentimentos que venham a surgir por outra pessoa.
Que ninguém vai terminar com ninguém por conta de um beijo.
Que ninguém vai terminar com ninguém por conta de um sexo.
Que eu poderia me apaixonar e ele também, mas que continuaríamos juntos porque a gente se gosta nesse nível, a gente se ama nesse nível.
Eu tenho meu relacionamento aberto como meu vegetarianismo: eu acredito que o certo é não maltratar, muito menos torturar e matar os animais. Eu tinha 15 anos quando parei de comer carne. Vocês não vão me ver enchendo o saco de ninguém para ter a mesma dieta que eu porque eu sei que essas coisas não funcionam assim. Eu precisei de um movimento muito meu, muito interno, para que eu parasse de comer carne e mesmo sabendo que era o certo a se fazer eu sofria e chorava de tanta falta que me fazia. Eu sei que é difícil, não vou exigir isso de ninguém por mais que eu acredite que é o correto.
Tanto com o relacionamento aberto quanto com o vegetarianismo eu vou conversar, dizer o que penso, muitas vezes compartilhar sobre o assunto mas eu nunca vou impor nada a ninguém. Essa sou eu, é como eu sinto, como eu penso e não faço questão que todos pensem igual e tenho certeza que todos sentem diferente.
Mas não venham NUNCA me dizer que eu não sei o que é amor. Que eu não amo suficiente. Eu estou de saco cheio de ficar ouvindo que só tenho isso porque não encontrei a pessoa certa. Eu nem acredito em pessoa certa, cacete. Eu amo demais meu namorado, não pretendo terminar com ele nunca.
Também não quero sair por aí beijando outras pessoas só porque meu relacionamento é aberto e eu “posso”. Eu posso mas eu não quero. Eu quero sentir coisas e poder viver essas coisas e quero que ele sinta e viva coisas também.
Eu não sou desapegada, eu sinto ciúme, não existe nada de evoluída em mim, eu amo demais meu namorado e eu posso sim ter um relacionamento aberto e me sentir feliz e satisfeita com meu naramodinho.
É isso.
