Crime passional em banheiro de casa suburbana

Ela se demorava olhando para os mortos,
atravessados setenta vezes pela espada vermelha da culpa,
entre seus pés.

E esperou as setenta gotas negras de dor
escorrerem dentre as pernas fracas para brilhar
no chão de porcelanato.

Foram setenta olhares no espelho cheios de
ódio por cada milímetro de pele
e carne refletidos.

E todas as setenta vozes que lhe 
insultavam diariamente calaram-se
diante do assassinato.

Porque setenta dentadas não foram
suficientes para quebrar cada partícula danosa ao 
sangue puro.

Toda manhã ela demorava setenta minutos para
decorar o ralo com células mortas antes 
de sair do banheiro.

E agora engolia cheia de orgulho cada uma
das setenta lágrimas que prometera
não derramar.

E saiu tropeçando de cima dos cadáveres
gelados cujos setenta gritos perfuraram
seus ouvidos.

Então abriu setenta portas à procura
de outra arma indecente pra mais
um feminicídio.

Mas as setenta cicatrizes planejadas
recusavam aquela nova
irmã natimorta.

Deu setenta murros contra a 
parede e a pia e a porta e o vidro
e o rosto.

E comeu as setenta unhas que encontrou
encravadas debaixo da
sua epiderme.

E cortou setenta mechas de cabelos
vermelhos como o demônio preguiçoso
inquilino do estômago.

Olhou de novo para os setenta corpos em
decomposição e desejou nunca
tê-los matado em vão.

E desejou nunca tê-los conhecido setenta 
semanas antes à beira da piscina.

E desejou nunca tê-los visto sorrindo com setenta 
dentes brancos e amarelos.

E desejou nunca tê-los dado setenta 
abraços melancólicos e doentes.

E desejou nunca tê-los setenta 
quilos de fracassos assistidos.