Subaquática

A tristeza lhe era inerente


Viviam num esclavagismo que não beirava a imanência, mas era eternamente perdurável, porque tudo lhe era assim, longo, distante, crônico.

A tristeza lhe era apenas inerente.
Onda que molha a areia e vai
e volta
e não
e sempre — inerente, inseparável, íntima, incerta, ínsita, inata. Inerente.
Assim.

Ele perguntava — estás triste? Não.
Porque não era um estado, nem mesmo um ser, mas o ser.
Ela nem era triste, era tristeza,
em si,
personificada,
nem era triste e nem estava triste,
mas sempre tristeza — porque lhe era inata,
ela era tristeza e a tristeza
era ela, inerentes
porque eram uma coisa só,
tristeza
e menina, tudo tristeza.
Nem sempre ocupavam o mesmo espaço, às vezes eram aqui ou ali ou muito longe ou muito perto, quase se tocavam, a pele arrepiava e em yoctômetros era uma distância enorme, mas quando estavam quilometricamente distantes às vezes formavam um conjunto intersecional e tudo se encontrava e se afrontava,
rio
e mar se juntando,
mas sempre água,
doce,
salgada.

Sempre água que leva tudo
e mar e rio e onda
e vai e volta
e sobe e desce
e para, perene, e corre
pra sempre, não para,
e chama, sempre chama.

Era assim sua tristeza inerente.