A burocracia do viver

Quer arrumar namorada? Vista-se assim, fala assim, tenta isso, queira assim. Quer arrumar um emprego? Não vista-se assim, não fala assim, não tenta isso, não queira assim. Quer ser feliz? Quer ter amigos? Quer se encontrar? Quer viver? São tantas as perguntas, né? E tudo é tão complicado. Por que a gente ama quem não ama a gente? Por que a gente sonha com o que nunca tivemos? Por que queremos sempre mais diante de um mundo tão burocrático?

Sempre me fiz todas as perguntas do primeiro parágrafo. Acho que muita gente também. Ou não. O que importa é que existe tanto lé com cré, tanto não, tanto sim que às vezes bate uma canseira de ficar a todo momento lutando por uma vida que pareça mais sã, mais correta, mais viva. Digo isso porque sempre me apaixonei pelas mulheres, mas nunca tive um amor correspondido. Sempre batalhei por algumas funções no jornalismo, mas nunca tive a noção exata do caminho exato a seguir. É tudo tão doído, tão pouco extasiante que tem dia que a vontade é se esconder debaixo do cobertor e fugir das responsabilidades do dia a dia, da cobrança externa, da cobrança interna, dos problemas, dos traumas e dos vícios.

Mas não dá. O importante é segurar, ter força, não deixar de tentar, até dá pra desanimar, mas não dá pra desistir. Os caminhos dos nossos sonhos sempre são os mais estreitos, os mais complicados de perseguir, existem rochas pelo chão, declives, lombadas, relevos. Tudo treme, machuca e nos torna diferente de quando começamos. A vontade de receber o carinho de uma mulher às vezes só acontece depois de muita rebentação, muita dor de cabeça, muita luta, muita dor. O amor existe? Existe. Mas só são felizes aqueles que conseguiram conquistar, que não escorregaram na banana, que não pisaram em falso, que não se sentiram rebaixados pelos sacrifícios necessários para conquistar a pessoa amada. Amar é sofrer. Encontrar o amor é sofrer em dobro. Porque, enquanto carrega o fardo da solidão, é necessário escapar da insegurança para chegar com firmeza e solicitude diante do ente que se quer amar. Tudo acaba sendo feito para tornar essa pessoa, que já é existente em seu coração, alguém pronto para receber o seu amor mais profundo e entregue.

Mas a conquista é burocrática. O sentimento é burocrático. São tantas escadas para cada degrau, tantas transversais para cada curva, tanta dor para cada amor. Em vez de se desesperar, o importante é se concentrar e aceitar esse fatídico destino. O de sofrer pra amar. E amar para se encontrar.