Você gosta de novela?

Eu sempre gostei de televisão. Nunca aceitei aquela máxima que muitos gostam de dizer: “Desligue a televisão e vá ler um livro”. Até porque eu sempre li muito…e também sempre vi muita televisão. Hoje não tenho mais tanto tempo, mas durante grande parte da minha vida adorava ver todos os telejornais, acompanhar todos os programas, todos os canais e, é claro, todas as novelas.

Como sou fascinado por boas histórias, foi nas telenovelas e nos filmes que consegui me identificar com personagens e enredos antológicos. A primeira novela que lembro de acompanhar todos os dias com os meus pais foi “A Indomada”, escrita pelo Aguinaldo Silva. Como era muito pequeno, ficava imaginando com uma mente de criança, inventiva por si própria, aquele mundo de Greenvile com os ataques do misterioso Cadeirudo, um buraco na terra que dava direto no Japão e até a vilã Altiva, interpretada brilhantemente por Eva Wilma, jurar a sua vingança desvanecendo pelo céu. No ano passado, tive a oportunidade de entrevistar Eva Wilma e ela mesmo lembrou que a criatividade e espontaneidade da personagem, que misturava expressões em português e inglês no jeito de falar, fazia a trama ficar mais interessante. E, por consequência, tornava aquele personagem “mau” em alguém que cativava o olhar do telespectador.

Depois de “A Indomada”, veio “Por Amor”, que até hoje eu considero a melhor telenovela que já vi. Talvez nem seja tudo isso, mas a Helena de Regina Duarte era algo muito forte e impactante de se ver. Foi quando me encantei pela profundidade dos textos de Manoel Carlos. Às vezes uma cena de conversa entre mãe e filha, que geralmente são cenas triviais e sem graça, eram respiros para mergulhar na alma daquelas personagens. E depois vieram outras tramas, as reciclagens de novelas mexicanas feitas pelo SBT, as reprises de clássicos de Janete Clair, Ivani Ribeiro e Cassiano Gabus Mendes, as outras Helenas do Manoel Carlos, a versão de “Escrava Isaura” da Record e, ultimamente, as obras de reviravolta escritas por João Emanuel Carneiro.

Mas existe até hoje sempre aquela pergunta com cara de estranheza e julgamento: “Você gosta de novela?”. Algumas pessoas fazem esse questionamento como se fosse algo menor. Várias e várias vezes ouvi sempre aquela resposta atravessada: “Eu prefiro seriado americano, que não tem aquela enrolação”. Ok, eu admito, algumas vezes (talvez na maioria delas) as novelas contam com tramas paralelas ou até mesmo núcleos principais que acabam se tornando pura “enrolação” para sustentar mais de 150, 200 capítulos. Só que eu acho que, pra quem gosta de televisão, isso faz parte da diversão de ver novela. Acompanhar o rumo dos personagens, mesmo que às vezes você saiba que eles estão presos em recursos narrativos criados apenas para prender a sua atenção até que algo aconteça daqui a 10, 20, 30 ou 50 capítulos. Só que uma hora as pessoas cansam e é preciso reinventar o gênero. E nem sempre todo mundo aceita ou deixa o preconceito (ou o pré-conceito) e acompanha aquela trama televisiva.

Talvez até por isso mesmo que nos últimos anos as telenovelas têm enfrentado enorme dificuldade de fazer sucesso diante do grande público. É um misto de cansaço de ver aquela mesma fórmula com o pré-conceito de aceitar que há espaço para novos formatos. E é por isso que eu defendo obras como “A Regra do Jogo”, que teve seu último capítulo exibido nesta sexta-feira, dia 11 de março. Com uma tentativa de criar uma trama policial calcada na realidade, João Emanuel Carneiro trouxe como figura representativa da história uma facção dominada por delinquentes e homens divididos pela mentira de uma vida “normal” e pela cobiça que o dinheiro traz.

Houve inconsistências. Houve. As tramas paralelas de “A Regra do Jogo” se perderam no fim da novela e algumas, como os casais trocados da favela, perderam completamente a graça. Mas isso faz parte da novela. Até porque a trama principal tinha, sim, um enorme fôlego que permitiu com que o autor criasse ganchos inacreditáveis pra cada um dos 167 capítulos. Isso não é uma tarefa fácil. Vimos grandes interpretações de Cássia Kis Magro (a sofrida Djanira), o sempre impecável Tony Ramos (em suas diversas faces como o Zé Maria), Susana Vieira (carismática como a Adidabeba, personagem defendido com todas as forças pela atriz), José de Abreu (brilhante no personagem mais difícil de todos, o Gibson), Alexandre Nero (que, apesar de vários tropeços ao longo da novela, conseguiu criar as complexas características de Romero Rômulo), Vanessa Giácomo (como a enganada “Chatóia”), Renata Sorrah (atuação delicada e profunda como a Nora), Deborah Evelyn (firme e forte como a Kiki, que demorou para aparecer na novela) e Maeve Jinkins (sem dúvida a grande surpresa como a Domingas).

Essa foi uma novela que eu acompanhei do primeiro ao último capítulo. E, apesar de inconsistências nos núcleos paralelos, trouxe em cada capítulo pelo menos uma grande cena de mistério, crime ou surpresa. João Emanuel Carneiro é habilidoso e criou uma trama intensa, violenta e cruel muito parecida com a vida real. Enquanto o Jornal Nacional noticiava a “regra do jogo” da Lava Jato (a expressão foi literalmente citada várias vezes por investigados na operação), víamos a outra regra do jogo para os integrantes e as vítimas da facção.

Muita realidade para uma ficção? Talvez. Mas não é exatamente isso que acontece em “Game of Thrones”, “Jessica Jones”, “24 Horas”, “Revenge”, “Breaking Bad” e tantos outros seriados feitos lá fora? Por que o brasileiro adora renegar um produto nacional e supervalorizar a realidade muitas vezes até mais violenta e cruel dos produtos feitos lá fora? Aí você vem me dizer: essa já é uma questão superada. Será? Se você perguntar, a maioria das pessoas vai preferir dizer que vê Netflix do que vê novela. Reflexo dos novos tempos? Sim…mas será? O Globo Play, alternativa criada pela Globo para brigar de frente com o “video on demand”, teve grande aceitação e tem, sim, muito acesso. E a TV ainda tem a dimensão de um público, principalmente no Brasil, que a internet ou outras ferramentas não conseguiram alcançar.

Eu sempre acho que falta valorização, falta reconhecimento, falta memória. Quando produzi meu TCC há alguns anos, que contava a história do Troféu Imprensa (o mais próximo do Emmy que temos no Brasil, guardadas as proporções, é claro), fiquei chocado com a dificuldade de encontrar dados históricos sobre a televisão brasileira. E o que isso tem a ver com a aceitação das novelas? Tudo. Se é um produto pouco visto e pouco lembrado, mesmo sendo há décadas a maior audiência da TV, existe algum problema nisso tudo. O fato é que não é errado gostar de novela. E se alguém perguntar, mesmo torcendo a cara e com olhar torto: “Você gosta de novela?”. A resposta deve ser dada com a mesma satisfação que se fala de um seriado americano, de um filme cult, de um livro conceituado, de uma animação nerd. “Gosto, sim”. Porque, no fundo, todo mundo já assistiu novela e valorizar o que é feito dentro do Brasil (mesmo que seja na forma de uma crítica positiva ou um resgate da memória televisiva) vale muito mais que um simples pré-conceito. O que vale é reconhecer, valorizar e assistir antes de julgar. Como tudo na vida. Eu digo: gosto de novela. Se é uma boa história, por quê não?