ANTES DE CHEGAR LÁ

Como eu chegaria lá?

Lá atrás, naqueles anos de escola, adolescência, primeiros trabalhos, primeiras descobertas e primeiros amores, sempre me perguntei como seria chegar lá nos 40.

Estaria casada. Sim. Casada, com filhos (dois provavelmente), vivendo em um bom apartamento, acordando cedo para trabalhar, dando um beijo rápido no meu marido logo cedo, entrando em um bom carro, deixando os filhos na escola e indo para o meu bem sucedido trabalho. Aos finais de semana um sítio, talvez. Hum… beeem antes de chegar aqui desisti dessa ideia. Comercial de margarina demais prá mim.

Estaria vivendo em uma casa confortável, em uma cidade de médio porte, com meu próprio negócio, um bom carro, um companheiro para dividir os dias, um gato, um cachorro, um jardim e uma horta. Viagens ao litoral duas vezes por ano. Talvez.

Estaria cansada. É, cansada. Já teria feito tudo o que poderia, descansaria em casa assistindo filmes, comendo pipoca, encontrando com as amigas, lendo bons livros, indo a teatros e shows em casas confortáveis e caras, cujos ingressos seriam pagos com meu rico salário conquistado com todo o meu trabalho e dedicação nos anos anteriores. Provavelmente.

Seria uma meio hippie. Estaria vivendo em uma praia no litoral brasileiro. Provavelmente Caraiva, Jericoacoara… Tambaba talvez. Dona de um café, recebendo as pessoas prá uma prosa, um trago, um cigarro e um bom som. Um marido do lado, trabalhando junto e que fosse comigo, de mãos dadas, ver o pôr do sol todas as tarde. Certamente.

Sendo do jeito que fosse, uma coisa era certa: saberia o que queria da vida. Direta, sem inseguranças, confiante, decidida.

Pois bem. Agora estou, quase lá (nos 40, é bom explicar!). Daqui há exatos quatro meses faço 40 anos e ando muito longe de chegar “lá”. Aliás, com as voltas que a vida deu, vejo que o ‘chegar lá’ de uns tempos atrás se transformou em tantos ‘aquis’, ‘lá atrás’ e outras perspectivas recheadas de alegrias, certezas, dúvidas e histórias, que chegar lá, há muito tempo deixou completamente de fazer sentido (aí, já não lá nos 40, é bom explicar!). E assim, antes de chegar lá nos 40 (ou sei lá onde) — acho que ficou confuso — mas, enfim… não sendo nada daquilo que pensei que seria nem vivendo nenhuma das histórias que planejei (ou planejaram prá mim) estou cá — sendo uma mistura de tudo o que pensei que seria e vivendo a minha história sem planejamentos. Vivendo pertinho do polo norte, bem longe da praia e do sol mas ao lado do mar. Casada com um homem maravilhoso que me acompanha e sai sempre de mãos dadas comigo para ver o mundo, muito além do pôr do sol. Cansada de futilidades, tendo tempo para ir ao cinema, andar na praia, sentar ao lado do rio, passear, ir a muitas exposições, ao teatro, comendo pipoca, rindo muito da vida e cada dia mais entendendo que a gente é responsável pela gente. Se deixar levar pelo comportamento dos outros, é uma perda de tempo. Uma coisa é certa: não sei o que quero da vida (Ufa! Acho que nunca saberei!), tenho cá as minhas inseguranças, confio no mundo e nas pessoas do bem (inclusive acredito mesmo que elas são a maioria) e decidida a levar a sério a ideia de que nada tem que ser. Tudo pode ser — ou não! Com dúvidas? Claro. E ainda bem. E com um pouco mais de tempo para começar a escrever sobre elas, sobre as delícias, dores e descobertas de que estar calma aqui, é muito mais importante e divertido que viver correndo tentando “chegar lá”.

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