Antes de enxergar na escuridão

12 segundos de Obscuridad. Há alguns anos ouvi essa música do cantor uruguaiano Jorge Drexler e me encantei por ela. Uma letra linda, um som gostoso e um cantor que sempre me agradou. Até aí, tudo bem. A música falava de um lugar, onde a cada 12 segundos a noite fica completamente escura. Era uma vila, onde vivem algumas poucas pessoas, em casas de madeira ou de alvenaria, à beira mar, ao lado de uma reserva de lobos marinhos e onde só é possível chegar à pé ou em gaiolas que cruzam alguns quilômetros de dunas. Não há veículos no local, não há ruas, não há estrada. Lá se vive com o suficiente e a única luz possível do lugar é quando o farol que guia os navios ilumina a vila. Por isso “12 segundos de obscuridade” é o tempo que o farol demora para dar a volta nele mesmo e enquanto isso, fica tudo escuro no local. Luz de velas dos bares e casas, luz da lua e só. Cabo Polônio.

Depois de ler sobre este lugar e ficar algum tempo com essa história rondando minha cabeça resolvi pegar a mochila e aportar em Cabo Polônio para viver meus 12 segundos de escuridão. Cheguei e sai de Montevideo, rodei algumas horas em um ônibus, fiquei na entrada do Parque esperando a gaiola, embarquei e fui de solavanco em solavanco chegando. A vista de cima das dunas era e continua sendo inexplicável. Só vivendo. Um lugar inóspito e paradisíaco ao mesmo tempo. Algumas poucas casas, quase nenhuma pessoa, alguns cachorros, um mar lindo e o barulho ensurdecedor das ondas e dos lobos marinhos. Por lá passei alguns dias e algumas noites em meio aos segundos de escuridão e mais uma vez confirmando a minha tão certeira convicção de que o suficiente basta. Foram dias intensos de uma solidão gostosa e ao mesmo tempo assustadora. Era um silêncio que falava alto, daqueles de que quando a gente está só, por muito tempo, costuma ouvir. São nossas vozes que gritam diariamente, mas a turbulência dos dias não nos permite ouvi-las. Quando o farol ia dar a volta e a ficava tudo escuro, como era noite de lua cheia, era possível avistar algumas plantas, alguns detalhes das casas, o olho verde da dona do bar e a pena do chapéu do senhor que ficava sentado na esquina vigiando o nada e dava palpite nas conversas. Toda noite ia para a bitaca de madeira que vendia cerveja, cigarro e sanduiche. Ponto de encontro dos moradores, onde quatro ou cinco iam contar causos do dia e do lugar. Eu era a única forasteira e percebia o quanto todos eles se esforçavam para enxergar na costumeira escuridão. Não que isso não fosse possível quando clareava, mas porque no escuro, todos fixavam o olho, ficavam mais atentos à conversa.

Se me perguntarem o que guardei de Cabo Polônio provavelmente será o barulho do silêncio e tudo o que consegui ver na escuridão. E talvez a vida seja mesmo isso também: alguns segundos de escuridão podem nos fazer enxergar mais além se nos dedicarmos a eles. Alguns segundos de silêncio podem nos fazer ouvir melhor o que nosso coração diz, se nos dedicarmos a eles. Essa ida a Cabo Polônio faz alguns anos.

Pois bem, o tempo com toda a sua maestria me traz de novo para a escuridão. Hoje, no inverno Irlandês, os dias amanhecem cada hora mais tarde e anoitecem cada vez mais cedo. Não são mais segundos de escuridão. São horas, muitas horas. Não serão poucos ou alguns dias. São meses. Mais uma vez me pego enxergando mais no escuro, ouvindo mais no silêncio. Tenho pensado em como temos andando tão atordoados com o excesso de barulho, de informação, de palavras, de insultos, de gritos, de muita fala e pouca escuta. Falar é importante, ouvir é importante também. A necessidade de mantermo-nos sempre acesos, alertas, brilhando e iluminado o mundo com nossas vidas, nossas festas e nossas selfs tem nos deixado com medo da falta de holofotes e talvez esteja nos escravizando. Será preciso tanta prova diária de brilho e som? Não sei. Valeria a máxima “melhor qualidade a quantidade”? Talvez.

Cada dia que passa, penso que a vida é mais simples do que pensamos ou do que nos fizeram acreditar que era. Com amor, delicadeza, respeito e amizade, o suficiente basta. E se nos permitirmos olhar mais para nós mesmos sem a necessidade de nos mostrar ao extremo, poder sentir nossos invernos, ouvir mais nossos silêncios — que seja por 12 segundos diários — talvez a gente consiga perceber que o que temos guardado dentro de nós, precisa ser descoberto por nós mesmos. E aí sim, a gente brilha!

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