Antes de não ser criança

Quando eu era criança, vivia no interior das Minas Gerais. Meus pais, gostavam de mato, rio, de festa e de brincar. Talvez daí tenha herdado o mesmo gosto. Certamente. Lembro-me pequena, esperando a sexta-feira chegar para depois da aula irmos todos para a casa da roça. Era um arraial perto da minha cidade onde tínhamos uma casa para passear aos finais de semana. Uma casa grande. Sala grande, quartos gigantes com beliches, um fogão à lenha que tomava conta de uma cozinha não menor que nenhum dos cômodos da casa. Ao lado, em frente, um pátio, com um barzinho de bambu — como meu pai gostava muito de festa, ele trazia o bar prá dentro de casa. E tinha um pé de laranja. Gigante. Que eu e meu irmão ficávamos apostando quem chupava mais laranja. Quando descíamos, a barriga ficava chacoalhando de tanto líquido. No fundo tinha um rio e uma ilha. É. Nós tínhamos uma ilha só nossa. Havia uma ponte que ligava a margem até lá e a gente ficava brincando de esconde. Nadar nesse rio do fundo não dava porque era cheio de folha. Mas aí a gente nadava no rio da ponte, logo à frente de casa junto com a Mosquito.

Mosquito era uma menininha pequenina, que aguardava ansiosamente a nossa chegada toda semana, mesmo sem ter a certeza se iríamos chegar. Assim que a gente chegava ela ia para a porta da nossa casa chamar para brincar. E claro, ganhar o presente que mais gostava: pão com mortadela e coca cola. Ela ficava radiante. E se mudava para lá no fim de semana. Era ela que nos mostrava os lugares mais legais do rio, que nos mostrava um lugar novo a cada fim de semana. Ela sempre pedia para calçar o meu chinelo (mesmo minha mãe dando um a ela, no fim de semana seguinte lá estava ela, descalça e pedindo o meu. E eu emprestava. Sempre gostei do pé no chão). A impressão que tenho hoje é que a Mosquito ficava a semana inteira em função de procurar algo novo para nos mostrar no fim de semana. No dia que ela não aparecia logo na nossa chegada, eu ficava sentada na porta de casa e contava até 120. Ela sempre chegava antes.

No dia das crianças, meus pais sempre levavam bala e pipoca. Minha mãe fazia pão com molho e limonada. E a meninada toda do lugar ia pro pátio lá de casa brincar de pude, de queimada de bola de meia e de correr. Correr só. Todo mundo corria. E era uma diversão. Isso foi no início dos anos 80.

Trago comigo essas lembranças tão vivas que há pouco menos de um ano resolvi voltar lá. Depois de tantas voltas que a vida deu, a casa foi vendida alguns anos depois. E daí tanta coisa aconteceu, tantas mudanças, tantas pessoas e 30 anos depois, voltei. Antes de chegar lá, falava da casa gigante, do quarto gigante, da cozinha imensa, do pé de laranja… Contei histórias sobre o lugar e a vida por lá, junto com seus personagens, o caminho inteiro. Cheguei. Passei pela rua e pela porta da casa umas quatro vezes até identificá-la. Uma casinha miúda, de janelas pequenas, pé direito baixinho e porta menos ainda. Parecia uma casa de anão. No lugar do pátio um curral. Não vi o pé de laranja. O rio da ponte continua lá, quase um córrego. Eu cresci. Não foram as coisas que encolheram. Meu olhar mudou. Quando identifiquei a casa, passei rápido por ela como um susto, para poder manter na memória a simplicidade da observação. Sem diminuir nada. Prá mim e prá minha infância grande, aquele lugar sempre se manterá mágico e gigante. O rio sempre será uma cobra, como dizia o Manoel de Barros.

Mosquito? Deixei imediatamente de lado a intenção de perguntar e procurar por ela. Procurei rápido com o olhar prá ver se ela estava chegando, mas não contei até 120. Alí, naquele lugar, ou aqui na minha cabeça, nos manteremos sempre lá. Crianças. Pequenas. Simples. E dentro de mim, luto bravamente para que aquela simplicidade e aquela criança se mantenham sempre vivas para que eu não me torne insuportavelmente chata, consumista e apequenando as coisas. Quero continuar usando a lente simples da alegria cotidiana para que as coisas mais belas e mais singelas sempre cresçam aos meus olhos. Assim é mais fácil, mais gostoso e bem mais divertido.

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