Com a alma mais leve

Agora, quando a leveza da alma vai aumentando na medida inversamente proporcional à velocidade do metabolismo, penso em uma palavra que li há um tempo (um ano talvez) no vidro traseiro do meu carro ao sair do trabalho. Quando li, pensei cá com meus botões: “É, essa pessoa tem razão.” Apesar de pensar que certamente era um desafeto meu que havia escrito aquilo e que, na cabeça dele como na da maioria das pessoas, estar acima do peso considerado ideal chega a ser um defeito e um xingamento e por isso concluir que ele devia estar me xingando, o que ele escreveu não me incomodou. Há tempos atrás incomodaria profundamente, porque cresci vendo comerciais lindos com pessoas magras.

Antes de seguir com a história do vidro traseiro do carro, o que me ajudou muito a chegar até aqui com pensamentos mais leves, acho bom fazer uma retrospectiva. Não fui gordinha a vida inteira, mas sempre achei que podia emagrecer mais e mais, como a maioria das pessoas dentro do peso que conheço continuam achando. Com o passar dos anos, meu corpo da adolescência (corpão dentro dos padrões de beleza) foi dando lugar a umas gordurinhas aqui e outras ali. Durante um bom tempo da vida, passei tentando voltar ao que era antes para caber numa calça 40, quiçá 38. Isso incluiu dietas malucas, médicos mais malucos ainda e remédios que poderiam ter até trazidos graves sequelas além da que trouxe: o aumento ainda maior de peso. Por muito tempo, e ainda hoje, ouço amigas e conhecidas indignadas porque aumentaram um ou dois quilos, mostrando aquela gordurinha invisível que as fazem perder noites de sono. Ouvia aquilo e sempre me perguntava se aquele comentário era uma pura e simples crueldade, se era uma necessidade de auto afirmação para receber um elogio ou se era uma parceria do tipo “Ah, tudo bem, eu também sou gorda!” Bem, sendo o que fosse, sempre achei engraçado e preferi pensar que era mesmo uma prova de amizade, companheirismo e parceria nos quilos em excesso (tudo bem que os delas fossem gramas ou poucos quilos apenas). Afinal, “estávamos todas no mesmo barco, precisando emagrecer.” (bom, não sei se estávamos, mas eu acabava embarcando na ideia). Também sempre achei curioso, as inúmeras receitas de dietas milagrosas que chegavam passivamente às minhas mãos. Era um tal de “Minha tia fez e funcionou, por isso trouxe prá você!” ou “Eu fiz, prá mim deu certo, perdi meio quilo em uma semana”. E assim por diante. Ainda tem a turma que sempre diz que se tiver força de vontade você consegue. Ou que, para perder peso, basta fechar a boca e pronto. Durante grande parte da minha vida ouvi estas e muitas outras receitas, piadas e parcerias. O mais engraçado disso tudo, é que, os quilos a mais, aparentemente incomodavam mais às outras pessoas que a mim mesma. Raramente reclamei, pedi receitas ou coisas do gênero. Sempre fui cuidadosa com a minha dieta. Entre frutas, verduras e legumes, não vivo sem as massas e as carnes, mas dispenso os doces sem o menor sofrimento, se tiver que dispensar. Gosto muito de cozinhar e cozinho muito bem. Acho que por isso gosto de comer bem também. Não necessariamente em quantidade, mas em qualidade. Assim, para mim, estar acima do peso nunca foi sinônimo de desleixo, ao contrário do que muita gente pensa. Também nunca foi sinônimo de uma saúde ruim. Fora um ou outro exame acima aqui ou ali, como todo mundo, sempre fui saudável. Assim sendo, na minha cabeça, uma pessoa gorda, não necessariamente é desleixada, comilona, doente. E ser magra, também não quer dizer que seja cuidadosa, o poço da auto estima, linda e saudável.

Uma vez li em algum livro, que os corpos estão cada vez mais leves e as almas cada vez mais pesadas. Talvez por isso, essa vaidade exagerada em busca de uma perfeição que não existe. Entender a mente humana é muito mais difícil que perder alguns quilos. E aí eu chego no vidro traseiro do meu carro. Lá estava escrito em meio à poeira “GORDA”. E ali, fiquei imaginando o quão pesada era a alma daquela pessoa que imaginou, provavelmente, que estivesse gratuitamente me causando uma tristeza quando eu lesse aquilo. Olhei, vi, voltei de novo, olhei novamente e confirmei: “GORDA”. Entrei no meu carro sem apagar e fui pelo caminho pensando que eu tinha algumas atitudes a tomar em relação àquilo. Me chatear eu não ia fazer porque há tempos já tenho comigo que, quando uma pessoa falo algo sobre mim, eu definitivamente não posso me chatear. Se for verdade, ok, é verdade então aquilo não pode me incomodar, afinal de contas é verdade e pronto. Se for mentira, é mentira. Simples assim também. Eu saberei disso, então o problema deixa de ser meu e passa ser do outro que inventou essa mentira. Neste caso, coube a primeira opção: era verdade então não havia motivos para chateação. Até porque, características pessoais, sexuais ou raciais, na minha concepção, sejam elas diferentes ou parecidas com as minhas definitivamente não são xingamentos. Então tínhamos ali uma verdade e um não xingamento. A outra atitude seria correr para fazer uma dieta, uma academia e mais uma vez fazer a maratona incansável da busca pelo corpo perfeito. Para essa eu só me perguntei porque eu teria que fazer aquilo se a primeira opção não me incomodava. Não fiz, claro. E por último seria limpar o meu vidro traseiro imediatamente. Também não fiz. Aquilo não era um xingamento. Aquilo era uma verdade e eu ia, dar uma conferida na reação das pessoas quando elas lesses. O primeiro foi o vizinho, que fingiu que não viu mas ficou vermelho quando leu. O segundo o frentista do posto que todo solicito me perguntou se eu queria que jogasse uma aguinha. Aproveitei a boa vontade do moço em limpar meu vidro empoeirado (e na cabeça dele fazer uma boa ação e me livrar daquele constrangimento… rs!) e a minha experiência antropológica acabou ali.

Like what you read? Give Narly Simoes a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.