Quando meu filho nascer

Quando meu filho nascer, quero dar a ele carinho. Aconchego, afago e um colo.

Quando ele começar a falar, penso em apresenta-lo o silêncio como, talvez, umas das formas mais inteligentes de expressão quando não se sabe o que dizer ou quando se está nervoso para falar algo. Desde pequenos, no momento de stress as palavras embaralham na mente e nem sempre o que sai é o que gostaríamos de dizer calmamente. Aí, calar até se acalmar é melhor. Quando ele estiver ansioso para expressar um sentimento que não consegue, o deixarei livre para falar na sua língua particular para que, primeiro, ele se entenda. Quando meu filho começar a andar, vou pegar na sua mão em alguns momentos, mas vamos rir juntos dos seus tombos. Pretendo mostrar a ele que é assim, que a vida é feita de tombos também e que, dependo da maneira que a gente olhe para eles, eles podem até ser divertidos e nos ensinarem a firmar mais o passo, pisar com mais cuidado e segurança.

Quando chegar o dia de tirar as rodinhas da bicicleta, vamos juntos para um parque e lá, espero poder dizer “Vai! O mundo é seu! E prá você conseguir se manter nele mais confortavelmente, concentre-se naquilo que você está fazendo no momento e busque sempre se aproximar ao máximo do ponto de equilíbrio.” Vou tentar mostrar a ele que com equilíbrio (ou o mais próximo dele possível que a gente consiga chegar) a vida pode ser mais leve.

Quando meu filho já tiver vontade de escolher suas roupas e brinquedos, vou contar para ele o que acho sobre isso. Acho que cada um pode vestir o que bem entender, da forma que for, das cores que preferir, que não existe ‘roupa de menino e roupa de menina’, que tudo depende da sua vontade naquele dia. Vou contar a ele que os brinquedos mais legais, prá mim, sempre foram aqueles mais simples e que eu conseguia brincar com eles. Vou contar sobre uma história de uma boneca linda que eu ganhei que dançava em cima de uma caixa de música, que eu amei, mas que não conseguia bem entender o que fazer com ela além de olhá-la. Vou contar que eu adoro dirigir e cozinhar, então se ele ou ela quiser um caminhão ou um fogãozinho, qualquer um dos dois, ficarei feliz em dar (ou construir com ele) prá gente brincar junto.

Quando meu filho crescer, vou tentar mostrar a ele sobre o que acho da natureza, dos animais, do canto dos passarinhos. Para mim, poucas coisas são mais agradáveis aos ouvidos que o canto dos passarinhos. Vou tentar mostra-lo que, a meu ver, os lugares são lindos sempre, depende da forma que a gente olha prá eles. E nesses lugares, existirão sempre pessoas diferentes, gostos diferentes, sexos diferentes, opiniões diferentes e… tudo bem! Ele não precisará impor a sua forma de ver a vida. Basta respeitar a do outro e seguir em frente.

Quando meu filho chegar em casa da escola e me contar sobre uma briga com um dos colegas, vou falar a ele sobre o que eu penso em relações às agressões e aos tratamentos a mim dirigidos. Para mim, cada um dá ao outro aquilo que tem de melhor. Se alguém o xingar, o agredir, zombar do seu físico, seu cabelo, seu brinquedo… que ele não revide da mesma forma, porque, espero eu, que até esse momento e durante toda a vida, ele tenha coisas melhores que isso a oferecer ao mundo.

Na verdade, é SE o meu filho nascer. Porque, quase lá nos 40, sem nunca ter pensado em ter filho, continuo com esse pensamento vagando muito pouco em minha cabeça. SE. Se o tempo permitir, se o meu desejo crescer, se a vontade chegar prá valer. SE. Enquanto isso, escrever essas linhas serviu para eu repensar um pouco sobre a minha forma de ver a vida e gostar dela.

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