Sobre o muito daquilo que nada tenho

Quando a gente para prá pensar naquilo que a gente tem, de estalo, assim, o que nos vem a cabeça? Pois é. Coisas e não coisas. Momentos, pessoas, animais de estimação, sentimentos. Quantos pares de sapato? Quantas blusas, jaquetas, calças. E meias? Quantas meias a gente tem se juntarmos as novas, as velhas, as meias calça e todas as outras de todos os tamanhos? Maquiagem. Uma infinidade. Acessórios. Perfumes, enfeites de cabelo, bolsas, óculos escuros… Saindo do universo feminino (não que homem não possa ter isso tudo que listei acima, é bom que fique claro), o que temos? Carro. Álbuns de retrato, lembranças de cartões recebidos, arquivos de contas que a gente nem imagina prá que serve. Objetos de decoração. Casa. Móveis e objetos de decoração, a gente sempre tem e sempre compra mais. Móveis. Cama, armário, fogão, geladeira, copo, prato, almofadas, roupas de cama e uma infinidade de coisas que se eu for listar aqui vou levar horas e talvez não consiga terminar. E temos pessoas, porque não? Temos mãe, pai, avô, avó, parentes, amigos, colegas, vizinhos, o caixa da padaria que a gente cumprimenta todo dia. Temos o tempo da gente. Temos o nosso espaço, o nosso momento com a gente mesmo, nossa individualidade, nossa solidão necessária. E temos os, se não melhores, mais valiosos de todos: sentimentos e conhecimento. A gente ama, a gente sente saudade, a gente sente raiva, a gente se lembra. Livros, faculdade, cinema, teatro. Temos todo o conhecimento que adquirimos durante todo o nosso tempo por aqui. Nos comunicamos, aprendemos, falamos, desenvolvemos horas e horas de conversa em volta de uma mesa com pessoas que comungam do mesmo olhar sobre a vida. Temos o mundo. Como disse Galeano “somos muito mais do que nos disseram que somos.”

Pois bem. Há pouco tempo resolvi me mudar e ter novas experiências nessa vida. Mudei de casa, de país, de tudo. Dos móveis que não doei, encaixotei e guardei para desencaixotar um dia (e creio que talvez esse dia nunca chegue se levar em conta a falta que eles não me fazem). Livros, retratos, objetos de valor sentimental e decoração, depois de alguns dias separando os que também seriam doados, queimados ou descartados, os que sobraram também estão embalados cuidadosamente e empoeirando dentro de outras caixas para talvez também não serem abertas. Hoje vivo com quatro calças, seis blusas, algumas meias, dois pijamas, três casacos e quatro pares de sapato. Tenho duas toalhas de banho porque enquanto uma lava eu uso a outra. O que também acontece com a roupa de cama. Tenho uma cama e um guarda roupas que tecnicamente também não são meus, visto que o apartamento que aluguei já vem com os móveis. Assim sendo, tenho uma casa temporária, com uma decoração que eu não fiz e que, apesar de ter mudado os móveis de lugar, colocado um penduricalho aqui e outro ali, se parece muito pouco comigo e com minha antiga casa com as paredes coloridaa ao estiloo cores de Frida. Ando a pé (e muito) porque não tenho carro. O que tinha/tenho ficou guardado na garagem dos meus sogros esperando pela minha volta. Se for pensar nas pessoas, também não as tenho. Estão longe e apesar da proximidade que as redes sociais nos proporciona, não as sinto perto o suficiente. Ahhhh, o conhecimento. Este eu também não tenho. Ou aqui não consigo usar como gostaria. Quando se está em um lugar onde não se entende praticamente nada da língua que se fala o conhecimento também pouco adianta. Muitas vezes me sinto como uma criança de cinco anos que precisa parar e pensar para formular uma frase como “Quero dois pães, um leite, um pó de café e preciso saber em qual prateleira fica o coador. Ah, preciso também de uma sacola.” Assim, as coisas lidas, vistas e conhecidas, hoje de pouco adiantam na vida prática.

Mas tenho sentimentos. Muitos. Todos. E tenho a felicidade de perceber o quanto esses sentimentos e a forma como eu consigo enxergar a vida são as coisas mais importantes desse mundo. Definitivamente, a gente não precisa de muito. E isso não é papo de desapego inconsequente, de vida hippie, de não precisar de dinheiro. Não. Claro que não. Claro que precisa, claro que precisa trabalhar, claro que precisa estudar, claro que precisa viajar, claro que precisa viver. Sem a menor sombra de dúvidas. Eu só me questiono, hoje principalmente, até que ponto a gente precisa ter tanta coisa. Porque quando eu parei para pensar em tudo o que eu tinha escrevendo isso aqui, fiquei impressionada do quanto minha lembrança foi enchendo de coisas aparentemente desnecessárias hoje e urgentes quando compradas. Sentir é preciso, viver é preciso, ter histórias para contar é preciso, aprender é preciso. Prá mim, hoje mais do que antes, é preciso diariamente repensar sobre o que temos, o que consumimos, o que nos faz nos aproximar da nossa felicidade, o que somos e que frase dirão sobre nós quando a gente se for dessa prá melhor. Apesar de esperar que isso ainda demore muiiiito tempo, eu sempre penso nisso. Rs! E eu não quero que se lembrem de mim como uma pessoa que tinha uma casa linda, muitas bolsas, roupas de marca, um carrão importado e uma nécessaire lotada de maquiagem. Prefiro que nem se lembrem do que tive, mas sim do que fui. Porque é assim que me lembro de mim diariamente: de como sou e no que ne transtormo com as doses homeopáticas das surpresas da vida. Eu sou as minhas histórias. Aquilo que vivo.

Cito Galeano, completo. “Somos feitos de muitas outras coisas além de átomos e partículas. Somos feitos de histórias e lembranças. Somos muito mais do que nos disseram que somos.”

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