Las rochas

Arquivo pessoal

Um fusca azul passou por nós e jurei ter visto um senhor de cabeça branca ao volante. Poderia ser delírio causado pela mistura emoción e brisa fresca, mas assim que vi os olhos arregalados de Mariana soube que ela havia tido a mesma visão. Pelos próximos 30 minutos daquele dia ensolarado, vagamos pelas ruas de chão batido do vilarejo à beira-mar, de retinas atentas e pés cansados nas chinelas de dedo. Nada do fusca azul e muito menos do señor de pelos blancos. Teria sido um acaso incrível, sin duda! Mas eu sabia que ele pouco costumava sair da fazenda em que ainda mora, na zona rural da capital, então seria muita sorte encontrá-lo pelas ruas daquele pedacinho de paraíso.

Rimos bastante de la alucinación compartilhada. Foi mais um dos momentos inesquecíveis que vivemos ali. Tudo bem que era alta temporada, a maioria das casas, de arquitetura rústica, estavam ocupadas. Motoristas e pedestres se entendiam como dava em meio à muvuca causada pela precária sinalização. Mas isso só no centrinho do povoado, donde están los restaurantes, los bares, las fiestas, toda la agitación. Nos quedamos más alejados de eso. Nossa ideia de viagem consistia em abraçar o desconhecido, mas do nosso jeito, no nosso ritmo.

Umbigo ao vento, passávamos o dia vestidas em trajes de banho. As noites de moletom e meia. Prazeres da vida à margem do oceano Atlântico. Uma breve estadia resumida em cinco dias que deixaram saudades e a promessa de voltar logo. No hostel, não éramos as únicas brasileñas, havia um ônibus lotado de turistas barulhentos. Junto a los nativos, mexicanos, norteamericanos y tantos otros que desconozco la naturalidade, as noites eram agitadas ao som de funk, cumbia e, claro, des-pa-ci-to.

Playa de los Pescadores

Grosseria minha não citar os outros sotaques e estilos musicais que animavam as noites no hostel, mas nossas caminatas de reconocimiento eram intensas e muitas vezes enveredavam o anoitecer. Assim conhecemos todas as quatro praias que formam o povoado de pescadores localizado no Departamento de Rocha, a cerca de 50 quilômetros da fronteira brasileira. Mar azul a perder de vista. Dizem que um dos fatores da água do mar ser salgada provém do desgaste das rochas, responsáveis pela liberação de sais minerais. Se a informação procede, não sei, mas além de dar nome ao Departamento, as rochas são parte da paisagem em toda a extensão. Apenas uma praia foge à pedra.

Ultrapassando la playa de Rivera, descobrimos uma trilha um tanto apagada em meio às rochas e à vegetação rala. Deveria ser perto do meio-dia, pois lembro do ardor do sol e da sensação de pés fritos na areia quente. Sobe duna, desce duna, avistamos uma extensa faixa de areia isolada das outras! Que felicidad! Descemos a última duna e nos esbaldamos na solidão de la playa Grande. Como verdadeiras donas da praia estendemos nossa canga, deitamos e, confesso, até tiramos um cochilo. Desenrolamos nossos sándwiches de salami con queso y una mostaza especial que encontramos en un mercado de la aldea. Listo! Elegimos la playa preferida del viaje.

Playa Grande

A movimentação de fim de ano abarrota as ruas do vilarejo, lota os restaurantes e bares, produz filas quilométricas nos minimercados. Os quiosques e as barraquinhas de artesanato lucram com os turistas. Na geladeira de casa tenho um imã com o famoso farol de la playa de la Viuda. Ainda salivo ao lembrar dos sensacionais buñuelos de algas vendidos num quiosque no centro de la calle principal.

Imagens das miniférias em Punta del Diablo têm um lugar especial na minha memória. Ali comemoramos cinco meses de namoro. Foi a nossa primeira viagem juntas. Uma aventura planejada em cima da hora. Com pouca grana e muita vontade de passear o olhar em um novo cenário. Imagina se o senhor do fusca azul realmente fosse o Mujica? Que sonho seria! Na próxima visita a los hermanos uruguayos faremos todo o litoral até Montevidéu, com visita à zona rural da capital uruguaia e, quem sabe, um café com o senhor do fusca azul ano 1987.