Quem vende seu peixe (em prosa)
Há quem venda bem seu peixe, e há quem seja indigente e nem estenda as mãos de pedinte do âmago por anunciar mais uma inglória. Há quem se envaideça, mesmo que orgulhoso não seja, que pede aplauso na província do alheamento como quem recorre ao palco dos gestos bem elaborados afim de que lhe reiterem existência, tendo por dentro apenas o sopro oco das aderências — mas quem, ilusionado, crê ainda na própria glória?
Há quem se desintegre, contraditório ambulante, mentindo para si sobriedade, indo cada vez mais para longe da própria inteireza de ser e de agir, como quem caminha para a própria morte: verborragias de interiores sobrepõem-se saturadas, ecos dissonantes se expandem no museu dos Egos com espelhos míopes. Por desejar responder muito mais a um público, homo politicus em decadência, julgadores da banca pré-estabelecida em orelhões de rua num tempo precário, no rebanho que recheia a próxima moda, a ter que se justificar e se desculpar para um bando fantasmático de subjetividades que ignora, sendo essas vidas, privadas, e algo muito mais inimaginável no plano dos acontecimentos invisíveis e ocultos, cujas influências nos passam desapercebidas.
E há quem, sem bandeira, ainda reafirme a estreiteza de ser ambulante, de ser sem eira nem beira e, por isso, mesmo que lhe queiram embalsamá-lo com regalias e presentes, ainda assim não passará de um pedinte — há desejo em mim, em ti, em todo mundo, é certo, por certo e decerto — , a crer que não há quem se salve, não há quem se sublime, não há quem se concorde: cada um a impor o próprio desejo em obstáculos recíprocos, sabe-se deus desde quando!
Pedinte, indigente, nada, prefere apenas ir cada vez mais aquém, sendo esse o seu além, de todo grupelho com suas vaidades discordantes em sorrisos amarelos, que chega de fininho na próxima festa dos holofotes que se creem vitrais.
[24.07.17]