Resquícios - II

Natália Luna
Jul 27, 2017 · 1 min read

Você se lembra
Você energia totalizante
Você no vai-e-vem da casa
Você no sal do silêncio do quarto
Você riso de garça noticiando jogos de graça
Você riso de caça e tiro-ao-álvaro da sagacidade mais rápida
Você olhos vibrantes a permitir a fala mais franca
Você mandala, filtro dos sonhos e pólo de atração na sala
Você tão menino no centro da sabedoria da sua madureza
Eu cheia de alternâncias na descoberta de uma grandeza maior
Eu a encarar o rebentamento da noite a fim de lhe encontrar
Eu ser amante na ambivalência do cotidiano a me festejar
Eu promessa de figo com figa no quintal de rosas breves
Eu a me perder no descaminho de três noites em clarão
Eu a decolar na estrada rumo ao tempo avaro
Eu a retornar subsolo do inconsciente, exposta, descreditada
Eu a ficar só com seus pés que tocaram os meus pés
Na ambulância sem saber porque ali estava
Eu a ficar só com suas mãos que tocaram minha face
Em meio a tantos livros sem saber porquê chorava.
Ah, você-em-mim que era!
Você-em-mim hoje não resta,
Mas você-aqui, em recordação, só sobra.

Vês hoje como eu até onde foi possível ir nossa quimera?

{Do ciclo de poemas ‘Roteiro dos desamores’}
[27.0717]

    Natália Luna

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    Do caderninho diário ao virtual esporádico. Escritora na casa número 0. Íntimo Exílio, ed. Urutau, 2019.