Resquícios — III

Natália Luna
Jul 27, 2017 · 1 min read

Você se lembra
Da feitura dos dias tecidos
Da ocupação sintonizada em você
Eu descrente na desavença
Você barítono na tormenta

Você se lembra
Eu orgasmos múltiplos
Espalmada inteira no devaneio
Você filologia do umbigo
Espalhado inteiro no receio
Eu filantrópica na varanda
Você egocentrismo na avenida
Você movimento ininterrupto e violento
Eu tempo permissivo até à sua dissolução
Eu corpo-cosmo todo preenchido
Você órbita girando para todos os lados
Eu sua casa de repouso
Você minha só minha sina
Eu obstinada na vazão do amor
Você arrastão do meu bem, do meu mal
Eu negligenciada já com prazo
Você café com adrenalina e cal
Chorando pranto se desculpando pântano
À porta do aeroporto
Escrevendo na minha testa
Que eu ainda existia
Quando antes eu te apontei
Opala no toque cheio de nervos
E pontos erógenos.

Eu me lembro
E desse vão eu não me engano mais não.
Se você se lembra, vale dizer, hoje pouco é que me importa.

{Do ciclo de poemas ‘Roteiro dos desamores’}
[27.07.17]

    Natália Luna

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    Do caderninho diário ao virtual esporádico. Escritora na casa número 0. Íntimo Exílio, ed. Urutau, 2019.