Resquícios — IV

Natália Luna
Jul 27, 2017 · 1 min read

Você se lembra
Da cidade inteira vazia quando você foi embora
Do primeiro doce levado aos refúgios secretos de cada um
Do meu solilóquio, de sua estrutura inabalável,
De meu querer lhe atravessar que era infindo,
De seu querer não dar uma fresta que era infinito,
De meus balões de aniversário em dias não comemorativos,
De meu acuda-me a alma lavada em pura vodka e a queda catastrófica
Dos vinhos em qualquer lugar, a qualquer momento e a qualquer hora
Eu menina-balela com flocos de neve nos olhos pedindo cócegas
Você homem moderno cheio de muralhas no apartamento
Eu menina-mulher de suas iniciações beatniks ouvindo Patti Smith
Você devir-homem de minhas alucinações sob o sol do primeiro cigarro do dia
Eu mulher úmida em seu plexo incitando o colchão no quintal
Você menino casmurrando cismando encafifando discussões

Você se lembra
Da aposta e da disparada de bicicleta numa subida
Do fogo alteado pela boca de outrem no teatro
Na sua chegada inconformado ao me ver ali,
Você, que me procurava por toda parte,
De quando de repente tudo era uma coisa só
Mas era mais a tontura do álcool espargido na terra

De quando antes o acaso nos fazia bater pela ciclovia
De como depois éramos tão cúmplices e dois -
De quando eu vestia sua camisa e você me beijava
De quando você vestia minha camisa e eu te sonhava -
De quanto bem depois você não deixou sequer uma pista?

{Do ciclo de poemas ‘Roteiro dos desamores’}
[27.07.17]

    Natália Luna

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    Do caderninho diário ao virtual esporádico. Escritora na casa número 0. Íntimo Exílio, ed. Urutau, 2019.