[Pintura de Cecily Brown]

Revestidos de vibração

Aprendiz de consequências ao mesmo tempo em que lançada nas experiências, sem remediar do tempo posterior os seus efeitos, dança no fluxo dos movimentos como o sangue no seu cego percurso. Já pode especular os dias a fio que repercutirão um único acontecimento a se reatualizar na ilha de edição da memória, e ser melhor, ainda, que assim seja, dar ao tempo o seu tempo oportuno de se ter com ele e, depois, esvaecer-se no esquecimento, numa cisma que por ócio deixa de perder o seu posto, seus relevos que culminam em panos pra manga, até que o novo inaugure o seu próximo vão imenso.

Sua voz, em todos os seus tons, tinha algo que dispensava a vaidade, e, aos poucos, eu ia acompanhando a sua fala, numa recepção despretensiosa a trocar experiências, narrativas que criamos para trazer algo de si ao outro como um presente a noticiar outras auroras, numa consciência auto-descritiva que se serve apenas do necessário de uma verborragia maior de interiores, e, por isso mesmo, se algo é dito, tem o seu destinatário, um leitor atento de signos expostos e retirados do dicionário maior que é mundo. Em meio à embriaguez, tudo isso vai se recolhendo para dar vez à outra exposição em movimento, instintiva e mais latente, onde aquele que ainda faz malabarismos com suas facetas sucumbe, ao mesmo tempo em que lida com diversas forças que o atravessam, a exigir de si outro posicionamento por um fio ainda mais espontâneo. Sua voz realçava sua subjetividade que a mim já me incitava a fazer daquele primeiro encontro uma noite para além de uma única rotação de horas. À vontade, segura e tão livremente ao seu lado já me sentia, que não saberia mesurar quando a última vez tão remota em que me sentia daquela forma. Sua voz dava passagem a um lugar à parte daquela cidade, um mundo poderia ter sido reinventado naquela mesma noite em que alguém me noticiava vir de um país distante, ressoando ondas de deleite em mim, estados de uma alegria encontrada e em pleno exercício do estar-ali presente.

As forças de resistência ao redor impunham já o alvoroço dos bares e da embriaguez alucinante dos jovens em nosso peito. Fomos à busca de mais um recanto à parte da cidade, talvez para inaugurar salões aéreos e cavalgadas surreais em paisagens inóspitas e minguantes. Adentro já se atravessava a madrugada, os outros eram companhias insaciáveis, compartilhávamos o estar-ali de cada um, as palavras tinham o efeito do esvaecimento para seres tão mais perceptivos e já pouco se dizia. Dançamos a perceber apenas o ritmo daquelas músicas, ao compasso do desejo que avançava conforme o movimento dos corpos encaixados num lance alucinante. Disse ele que sua pele se revestia de vibração, eu disse que tudo se dispunha para a nascente de si palpitar com todo vigor. Falávamos por entre palavras escritas em cima da mesa.

A noite poderia ter se encerrado naqueles passos sem-fim no salão. Mas não, ele jurou ter se esquecido de algo, mas deixou uma toalha em minha cama que eu bem poderia ter filmado, marcado com uma imagem e som na paisagem da memória, no instante em que ele a arrancou de si tão matreiro, tão corpo que se devassa despudoradamente inteiro, tão provocativo quanto escancaro para meus olhos e boca de promessas de paraísos e delícias oferecidas tão somente em dias onde não há estiagem e tudo é ganho e abundante. Se havia para mim o tempo da colheita dos amores maduros, porém estes mais passageiros e mais inconsequentes, ali estava o meu fruto suculento. De repente, lançados ao acaso, ao ocasional e já tão imediatamente entrelaçados num mesmo destino, só não mais nos dias que se seguiriam adiante.

Um mês depois ainda a repercutir os seus efeitos, eu, a aprendiz para todo-sempre de efeitos, estendo o nó desse laço e devo ficar, ao menos, com o mais esboçado das mãos que se acariciaram naquele carro, numa fuga para o que há de mais natural na lei dos encontros, nessa leveza solta de jogar o corpo desinibido no mundo, andar pelos cantos do mundo e preenchê-lo, livrando-o de suas reticências pelos muros, de ser o que se pode ser e mostrar como se é. A dança e a toalha estendidas no chão de meu mais alto prazer numa latência que corre hoje no plano de fundo da memória.

{25.05.17}

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Natália Luna’s story.