[De ‘Cenas de um casamento’, 1973, filme de Bergman]

Sobre o terreno de intriga sentimental

Há um limiar no terreno de intriga sentimental? Talvez fosse isso de que eu tentava falar ontem. Algo parece invalidar os amores quando numa conversa se transita de um causo a outro causo, ao mesmo tempo em que se recorda de um amor presente não realizado, indo de uma paixão ferida até um caso recente, e mais de um nome é posto à mesa, exigindo de seu interlocutor uma claridade ainda não dada e o seu esforço metodológico para desembaralhar o amontoado excessivo de nossas questões apresentadas. Cada subjetividade repete a sua intriga, o seu formato de experiência mais reconhecida, a sua forma de se relacionar onde tudo indica que passou a se realizar daquela maneira, e quando digo intriga não quero dizer propriamente tumultuo com efeitos negativos, mas mais o que se analisa e que se passa a conviver como algo já associado à própria memória emocional, mesmo que ainda nesse terreno tudo ainda se reinvente de formas contrariamente distintas.

Se há um limiar reconhecido, pode-se a partir daí se referir, pode-se a partir daí cavoucar o percurso que o levou a agir e a perceber de determinado modo o seu campo de afetos. Mas aqui direi que o ponto essencial é reconhecer quando se passa a se relacionar de forma saudável ou doente com a intriga que já o dominou, seja pela via do apego ou outra. Aprendizados são somados nesse percurso, de um término a outro, numa gama abrangente, e ainda assim o relutar no erro, repetindo algo que já havia sido imprimido intrinsecamente como aquilo que não gostaria de retornar, parece nos ser irremediável, não nos deixando isentos de suas influências posteriores. Podendo assim um único erro passar despercebido num acontecimento corriqueiro, sendo tão sutil quanto a fragilidade de um belo vitral quebrado em infinitos cacos de vidro.

Sobre esse tema, porém, não irei falar tudo que se lhe bifurca. O que gostaria aqui é analisar essa transposição exata, quando de uma passagem a outra passa-se a se relacionar de uma forma não saudável com o objeto de representação amorosa, ou simplesmente com o outro. Seria estar imerso desde já numa confusão sentimental, num leque de possibilidades a oferecer apenas gotas de mar às mãos dos passantes, não ter onde aportar o seu barco, para que solte as suas amarras num lugar seguro? Seria não se posicionar em qualquer relacionar-se, estar perdido, enganando-se de que com essa roupagem camuflada ninguém o aperceberá? Seria não dar um grande sim, por um medo instintivo e profundo, a um relacionamento que enfrente intempéries, sacrifícios, doações, todas as demandas do outro e as suas próprias, numa construção que independe de tempo, lugar e hora?

Mas muitas ainda são as perguntas e eu tenho só algumas pistas. Relacionamentos disfuncionais tangem uma dor como aquela que não se deseja nunca que alguém a sinta. Bem leve leve me relevo e espero apenas de um relacionamento breve que seja um relacionamento light, reacendido incontavelmente, mas que seja fundamental o seu corpo sem imposição do peso à própria terra, apenas deitado na grama a observar as estrelas depois de um mergulho em si, depois de um sonho cálido a confirmar a magnificência do universo.

[28.05.17]

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