Maldito sentir

Sentir não é exatamente meu verbo favorito. Eu passo. De verdade. Passei inúmeras vezes esse tal sentir. Me incomoda, não sei bem explicar.

Sentir uma coisa implica em sentir muitas outras mais. Nunca dá pra sentir só uma, sendo ela boa ou ruim. Exemplifico. Amor, coisa linda maravilhosa, todo mundo quer, mas o amor sempre vem cheio de coisas: euforia, ciúme, paixão, mágoa, saudade, medo de perder, etc. Há quem me contradiga e afirme que ele traz mais coisas boas do que ruins, não opino, pois talvez eu só não tenha dado a mesmo sorte, não é mesmo? Não que amar seja ruim, mas é confuso, leva tempo, assusta e nem sempre a gente sai só com a parte boa de tudo isso, né? Na maioria das vezes, demora até a gente conseguir arrumar as ideias, colocar os pingos nos is, entender como o outro reage e pensa e talvez isso nunca nem aconteça, é verdade.

Vejo diversos relacionamentos por aí e os que mais invejo são aqueles cheio de calmaria e tranquilidade, aqueles nos quais a confiança e o respeito parecem fluir como uma bela brisa dominical de fim de tarde de primavera.

Mas eu não queria falar apenas de amor, queria mesmo é falar do sentir. Sentir qualquer coisa mesmo. Sentir nos tira da nossa zona de conforto e bagunça muita coisa, tira qualquer sensação de controle que acreditamos ter. No fim, todo mundo sabe que não tem controle de nada, mas a gente se ilude.

Eu particularmente gosto bastante de achar que estou controlando algo e é por isso que sentir me incomoda tanto, porque me tira a pouca ilusão que eu tinha de estar controlando algo dentro de mim, ou até mesmo fora. Se eu pudesse, faria tudo no mesmo horário, da mesma forma, ousando bem pouco, fazendo pequenas melhorias no máximo, porque eu gosto de coisas que mudam devagar. O susto é menor, talvez até doa mais, é verdade, mas assusta menos. Tudo questão de ponto de vista mesmo. Já vi muita gente que adora uma mudança brusca, um supetão que vem e muda tudo, que te faz perder a cabeça e te leva pra outro lugar. De novo: é muito pessoal. As poucas mudanças bruscas pelas quais precisei passar sempre foram pra pior e então, aos poucos, foi que eu aprendi a olhar o lado bom e tentar ver alguma vantagem nelas. Deu tudo certo, ninguém morre de mudança, acho eu, porém posso dizer que elas vêm e ensinam muito mais rápido do que os processos mais lentos, e também deixam marcas maiores.

Muitas vezes desejei ser só uma expectadora disso tudo, não precisar ser ativa. Passar passivamente por tudo o que sinto e só observar, não viver. Pratico esse exercício toda vez que me vejo diante de algo muito incômodo no coração e na cabeça, fico tentando fingir que não está ali, que nem é comigo. Nunca funcionou. Apesar do medo da mudanças, é preciso aceitá-las. Não aceitá-las é se recusar a viver, se recusar a aprender, aí já seria burrice demais, fiz isso inúmeras vezes. Você ignora a mudança, mas ela dá um jeito. Vem e esfrega na sua cara que do jeito que está não dá pra ficar, ou você aceita ou vai viver miseravelmente enquanto não aceitar o novo.

Sentir é mudar, cada novo sentimento é um pouco de mudança dentro da gente. A gente às vezes decide mudar através de um processo racional mesmo, porque vai nos fazer melhor, vai ser melhor pras nossas vidas. Ledo engano o nosso. O processo pode até ser racional, mas foi alguma coisa dentro do coração que nos levou a considerar mudar, por isso sentir me incomoda tanto. Sentir me obriga a mudar para que eu possa aceitar as coisas e aprender com elas, sentir me tira do que eu sempre fui e me transforma em algo novo que eu não conheço e tenho medo. Que fácil seria poder ficar de fora aprendendo com os processos alheios, sem precisar sentir as coisas que a vida traz pra gente aprender, sem precisar viver as consequências, boas ou ruins, das nossas escolhas. Melhor ainda, nem precisar escolher!

Passei tanto tempo evitando mudar meus posicionamentos que acabei nem sabendo quais eles eram de verdade. Passei mais tempo ainda tentado não sentir, porque não queria as consequências ruins que acabei tendo de lidar com coisas ainda pior: minha própria inexperiência e meu vazio. Demorou, mas eu entendi que tem um limite entre mergulhar de cabeça e só molhar os pés, bem como entendi que talvez faça bem mergulhar de cabeça às vezes, só porque a pior consequência é uma barrigada na água, um pouco de dor e uma lição de como não fazer na próxima. E a vida segue, sempre segue.