Maré lunar

Existe uma semelhança entre meu esforço de socialização e as marés lunares.

Quando a Lua está próxima ao zênite de um local, ou diametralmente oposta, temos a maré alta. Quando a Lua está a cerca de 90º desse local, a maré está baixa. Isso não sou eu quem digo, é um trabalho que encontrei na internet. No entanto, isso é algo que eu deveria saber muito bem, porque eu estudei esse assunto. Eu sou bióloga marinha, e eu me lembro do tom de branco do papel da apostila onde isso estava escrito quando eu estudava para a prova, 12 anos atrás. Lembro do desenho ao lado do texto. Lembro também que eu estava estudando em um 485 a caminho da UFRJ, na manhã da prova, e que eu estava passando ao lado do sambódromo. Eu tenho uma memória muito boa para tudo o que eu vejo. E eu vejo mais do que eu deveria, sendo sinestésica. Eu “vejo” sons. “Com que frequência?” Vocês já sabem.

Mas não lembro do conteúdo do texto. Eu me lembro de ver os números impressos na folha: 180º, 90º. As palavras: maré, lua, corpo d’água. Mas não me lembro a ordem deles, a ordem das palavras. Não sei reorganizar as palavras na minha mente, nem as pessoas. Uma vez na minha mente, elas tomam conta. Sem entrar em qualquer categoria segura, elas transitam entre meus pensamentos e tudo invadem, como maré alta. Quando estou muito perto ou demasiadamente longe, quando não as vejo. É natural que me afoguem essas pessoas e emoções quando estou imediatamente debruçada sobre elas, mas é de se estranhar que me afoguem quando não estou em sua presença.

O silêncio, o abandono e a óbvia rejeição sofrida por este frio pedaço de astro — eu, a Lua, a pessoa — termina por destruir cidades inteiras em um mundo que construí mas não tive como habitar. Desde que me isolei, isso tem se tornado cíclico. Anual. Todo ano eu me aproximo mais do que deveria, mais ou menos no meio do ano. E eu sou repelida por algum motivo, sendo isolada no ponto mais distante do meu mar de gente (plural ou singular), diametralmente oposta, sem ver, sem ouvir. Apenas sentindo, sem conseguir entender o que está ocorrendo. Eu sei que a maré está subindo, eu estou encharcada e com frio, mesmo que distante. Eu sei que a destruição já começou dentro de mim, tudo o que eu construí ao longo desse ano, os muros que eu ergui para proteger o coração que eu coloquei no litoral. E o próprio coração, mais uma vez — por que você não morre logo, desgraçado?

Entendo que só conseguirei manter minha construção diligente a salvo se mantiver uma distância segura: nem tão perto que eu não possa evitar o afogamento, nem tão longe que eu não possa gerenciar os danos. A uma distância segura em que eu possa jogar o jogo do mar. Sem me envolver, sem causar meu próprio afastamento por excesso de intensidade.

E eu tenho tentado, em meu isolamento, me posicionar sempre a 90 graus (os calculados 90º). Mas ainda não consegui, mesmo sendo formada em Biologia Marinha, entender por que eu insisto em me deslocar pra perto, sabendo que serei deslocada pra longe em seguida. Talvez eu não seja uma bióloga propriamente dita. Nem a Lua um astro propriamente dito.