O Legado de R.

Você venceu.

Já tem anos (dois, creio eu) que não nos falamos. Já tem um ano que eu não sinto nem um pouco de falta de você. Já tem um ano que penso em você e nenhum sentimento de saudade ou culpa me castiga. Eu ainda gostaria que tivéssemos uma boa relação, que fôssemos amigos, embora eu saiba, bem dentro de mim, que não há nada entre nós que seja material de amizade.

Você me destruiu e me destruiria de novo, e isso não é sobre romance ou sobre intimidade. Isso é sobre poder. É sobre vencer, e você venceu.

Sabe, eu consegui de alguma forma me descosturar da sua sombra. Consegui parar de querer ser aceita como ser humano por você, de querer conquistar sua amizade ou admiração (com as quais você me banhou diariamente, quase me afogando, por alguns meses em 2005 e menos frequentemente em 2006, mas que retirou abruptamente após me ver em meu estado mais vulnerável — “eu te amo, mas eu mereço mais que isso”). E foi ali que você deu o seu primeiro golpe, e eu quase caí.

Mas eu sou uma pessoa persistente, perseverante — o que vira teimosia quando a situação é desfavorável. Eu me recusei a acreditar que você era uma pessoa ruim, ou doente. Eu me recusei a aceitar que tudo aquilo no qual você tinha me feito acreditar não era real. Mas não era real. Nada era real. Nem você. E você sabe.

Me vendo vacilando, você me golpeou com força mais algumas vezes. E ali, no chão, eu quase morri. Eu queria lutar com amor, com flores, com carícias. E recebia mais golpes.

Como bom médico, ao encontrar o tédio você pegava aquela massa disforme no chão do seu quarto, bem escondida embaixo da sua cama, e curava para se divertir mais um pouco. Mas logo eu e você descobríamos que a sua diversão não estava em me segurar em seus braços, e sim ora em me quebrar com seus silêncios, massivos e intransponíveis como punhos fechados, ora em me dilacerar com suas palavras afiadas. Eu comecei a entender que você me curava justamente para me quebrar de uma forma ainda mais cruel que a anterior, porque você me moldou no formato exato de tudo que você odiava em você mesmo.

Eu era agora uma massa disforme que evocava suas culpas, seus preconceitos, seus desejos que você não poderia revelar a ninguém. Você fez de mim um saco de pancadas recheado da sua própria merda. Para isso, você precisou me remover de mim.

E, como um médico não tão bom, você me removeu cirurgicamente de mim mesma. Eu sangrei e todo mundo viu, eu passava sangrando pelos lugares, eu fedia porque estava toda infeccionada por dentro, eu arrastava meu corpo por aí pedindo ajuda: “Eu estou morrendo, me ajude. Ele me tirou de mim”. E então era algo feio de se ver. Ninguém queria ver o lixo hospitalar que eu virei. Todo mundo queria ver você, limpo e arrumado em seu sapato social e camisa de botão, com sua esposinha e seu carro bonito e casa de dois andares, o retrato da fidelidade, da vida burguesa que deu certo. E eu precisei me curar quase sozinha. Quase.

Eu gostaria de terminar esse texto dizendo que, como uma fênix ou uma flor que brota após um desastre, eu renasci. Mas é mentira. Eu melhorei muito, mas eu ainda arrasto meu cadáver comigo, eu estou morta ainda. Porque você se foi, mas deixou dentro de mim todas as armas que usava para me destruir. Seus silêncios, suas mentiras. E volta e meia eu pego essas armas e me destruo novamente, para estar sempre um passo a frente, para evitar que as pessoas façam isso comigo. Para evitar que isso se repita.

Eu estou sempre um passo a frente. Você venceu.

E hoje, assim como você, eu não sou real. Eu não sou real, mas eu não tenho uma máscara de uma vida bonita para colocar na frente do meu nada. Eu tenho suas palavras e seus silêncios.

Palavras

e silêncios.

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