Desplugar do facebook

– Gente, tô chocada com esse vídeo do Facebook
– Mas por que é que vais te meter no Facebook?

Tive esse diálogo com José Cabaço, Global Concept Creative Director da Nike. Além de ter o sobrenome mais amado do Brasil, o Zé é responsável pelo storytelling de produtos que possuem a etiqueta Nike. E ele não tem Facebook. Nunca teve.

Começamos aquela conversa porque eu tinha acabado de assistir a um vídeo da minha timeline que disparou sem que eu desse play e capturou minha atenção. O vídeo era contra o aborto e tinha como argumento o fato de que o Steve Jobs, que foi abandonado pela mãe e adotado quando bebê, poderia ter sido abortado — o que privaria o mundo de um gênio.

Se é para usar essa mesma lógica estúpida, o legado de Hitler para o mundo justificaria seu aborto.

A resposta de Zé não carregava nenhum ódio. Tinha apenas impressa a clareza de que a lógica que levou àquele argumento não merece ser alimentada. E acredito que o Zé só tenha sido tão rápido em neutralizar o efeito daquele vídeo sobre mim porque ele não está no Facebook.

O Facebook virou um produtor de ansiedade, porque provoca a ilusão da presença em vários lugares ao mesmo tempo. Se eu estivesse escrevendo esse post na minha timeline do Facebook, eu estaria agora sendo bombardeada de notificações sobre o que outras pessoas estão publicando ao mesmo momento. E eu clicaria naquele numerinho vermelho das notificações inúmeras vezes, interrompendo meu fluxo de escrita.

O Facebook me provocava a ansiedade de saber o que estou perdendo enquanto fico sentada em frente ao meu computador. Mas eu percebi que estou mesmo é interessada em saber o que eu ganho estando presente aqui. Então, para ganhar qualidade enquanto meu computador está ligado na minha frente, transformei meu perfil em FanPage no Facebook e transferi parte considerável da minha presença e energia aqui para o Medium. Meu objetivo é passar menos tempo com mais qualidade aqui na frente do computador e dedicar a maior parte da minha energia a trabalhar off-line, ao lado de pessoas inspiradoras.

Foi assim que passei a última semana. Trabalhei ao lado de um time de 16 pessoas muito talentosas e fomos liderados pelo José Cabaço na Mesa & Cadeira — a metodologia de aprendizagem pelo trabalho mais genial do mundo. A fórmula da Mesa é muito simples e resumida assim por sua criadora Barbara Soalheiro:

um líder brilhante na cabeceira
+
um grupo pequeno de profissionais talentosos
+
um projeto

Em uma semana prototipamos uma solução para um briefing megalomaníaco e o resultado — que ainda não posso revelar, mas espero que logo esteja no ar — me deixou muito feliz. Mais do que tudo, o processo me fez aprender um bocado sobre mim mesma. Gosto muito dessa fala de Aristóteles "quando suas habilidades se encontram com os problemas do entorno, aí está sua vocação". Mesa & Cadeira é também uma metodologia de experimentar vocações, de aprender pelo fazer, pela experiência, sem partir de nenhuma premissa ou verdade absoluta.

Sinto que o Facebook está muito poluído pelas verdades, por isso me mudo para cá, na intenção de ter presença em uma plataforma onde genuinamente se trocam ideias.