Pessoas [Pessoas_zero]
São apenas pessoas. Pessoas são animais, que às vezes se acham mais racionais do que sua condição lhes permite. Basta exaltarem-se os medos, arrepiam-se pêlos e espinha, da base da coluna ao topo do couro cabeludo. Batimentos cardíacos se aceleram, a respiração se encurta, e toda a racionalidade que pode haver é tomada por instintos de sobrevivência, mais ou menos passionais, mais ou menos frios, depende de quem analisa. Análise a qual é totalmente inútil no momento da sobrevivência, aparece apenas depois na tentativa de entender como atuam os instintos e encontrar correlação entre eles.
Pedro e Fábio [Pessoas_1]
Pedro e Fábio são os primos mais amigos que já se viu. Se embebedam juntos desde o tempo em que a bebida era escolhida pelo preço e pelo teor alcoólico. Descobriram juntos a mágica da bebida. Compartilham sonhos - e vez ou outra até algum plano - revolucionários. Moraram juntos na juventude. Comemoram ideais. Nunca brigam, nunca nunca. Têm certeza que o mundo pode ser diferente e crêem compartilhar as mesmas certezas. Por isso tudo, continuam sem brigar. Um alimenta a alma, enquanto outro enche os copos. Troca justa. Talvez creiam mesmo nas mesmas coisas, só mudam as formas de aplicar às crenças à realidade: cada um tem uma história a ser repetida, a forma muda para a mesma essência. Viver histórias nas quais não se acredita, sejam elas com mais ou menos amor, mais ou menos tradição, mais ou menos loucura e admiração, é uma forma de concretizar a vida da inquietude, a vida da fabulação. Confabulo o inexistente para poder viver o que não creio. São instâncias separadas. Muito distintas, ainda que próximas. Uma quase loucura, ainda que escolhida, d'alguma forma. Uma amizade-prirmandade que se nutre do que poderia ser, nunca do que é. O que é não importará jamais, importa apenas para relacionamentos materialistas.
Myrna [Pessoas_2]
Myrna viveu uma vida entrelaçada ao desentendimento da essência do marido. Por décadas - ou foram alguns pares de anos que pareceram décadas? - assumiu a culpa por tudo que desandara na vida do parceiro, inclusive aquilo que desandara muito antes dela existir na vida dele. Também gozou os momentos de bonança em que o parceiro escolhia outros alvos para levarem a responsabilidade por seus desandos. Com um alvo comum, podiam regozijar juntos, momentos raros por ali. De todos os modos, havia um sentimento de pertencimento único: eu sou tão crucial para você que, ou sou capaz de arruinar toda a sua vida, ou sou capaz de soprar todas as suas feridas e te dar algum alento quando o resto do mundo não te entende.
Nesta tensa e desequilibrada equação, encontrou companhia para a vida entre a presença real do parceiro como era e a presença desejada de como ele seria no próximo instante em que percebesse que jamais viveria sem ela novamente. Isso tudo fazia sentido para ela. Viver o ônus do outro lhe dava um senso de responsabilidade e urgência que nada na vida jamais a fizera sentir. Era o que precisava para ver sentido em estar viva. Estar viva para dar sentido ao sofrimento do homem que amava.
Myrna demorou uma vida e não percebeu que o problema do marido não era com ela.
Tomé [Pessoas_3]
Tomé destrata as namoradas, gaba-se por nunca ter começado a namorar por opção, só por convencimento. Os relacionamentos que assistiu e viveu calcavam-se no sofrimento, talvez por isso esteja preso na concretização deste imaginário. Talvez por isso vá se achar eternamente desprivilegiado em relação ao restante que, de diferente, parecia ter alguma estrutura: de família, de amor, de grana. O problema das pessoas que se sentem desprivilegiadas é que podem passar a vida buscando pequenos privilégios que custam o prejuízo de algumas pessoas, simplesmente porque já viveram o prejuízo e acham que às outras pessoas cabe em algum momento vivê-lo. Como se infligir a crise a certa pessoa seja tarefa de outra pessoa específica. Basicamente, se põe a brincar de universo para corrigir onde a sociedade, claramente, errou. Este sentimento de compensação pode, inclusive, basear relacionamentos profissionais e afetivos, sejam eles profissionais ou de amizade. O meu benefício pelo seu prejuízo. É uma ação quase educativa, na visão do prejudicado, ou até algo meio Robin Hood, não fosse cruel, por ser calcado em parâmetros unilaterais. Há uma nuvem muito fina, tão fina que não se vê, que embaça essas relações e esse embaçamento pode ser fatal. Inclusive quando percebe-se que o embaçamento está ali, mas prefere-se não olhá-lo - outro erro comum cometido por pessoas polianizadas, que querem acreditar que o mundo é só aquele que se imagina. Logo, se eu não enxergar, não verei o que se passa. E, se eu não vejo, isto não existe. Se não existe, não me toca. A questão é que o embaçamento é muito diferente de nada, ele existe.
Não se pode confundir algo que existe com nada.
Não se pode confundir algo que existe com nada.
Não se pode confundir algo que existe com nada.
Nota para não-esquecimentos. Nota para não-enganamentos inconscientes de si mesmo. Nota para autoavivamentos.