Contrastes cotidianos entre a saúde pública para mulheres no Canadá e no Brasil

imagem tirada daqui, ó: theartidote

No último 8 de março me dei um DIU de presente. Depois de tentar ficar sem tomar hormônio por cerca de 8 meses, as oscilações de humor e a teimosia do meu ciclo me fizeram buscar uma solução alternativa de anticoncepcional. Depois de pesquisar muito, fui no posto de saúde da minha faculdade e a enfermeira presente me sugeriu o Jaydess, um DIU hormonal que libera cerca de 6 microgramas de levonorgestrel (progesterona sintética), prevenindo a gravidez tanto fisicamente quando quimicamente. Ali mesmo marquei a consulta com a ginecologista pra próxima semana, pra me certificar que seria a melhor escolha. No lado positivo, o DIU (hormonal ou não) não tem estrogênio, é de longa duração (o Jaydess dura três anos), e tem um bom custo-benefício.

Entre os efeitos colaterais mais comuns, estão o possível ganho de peso, aumento de cravos e espinhas, cólicas mais intensas, e menstruação irregular (mas sem risco de gravidez!). Topei, marquei pra dali duas semanas, quando eu apostava que estaria menstruada. Com a minha prescrição, levei o DIU pra casa no mesmo dia, após pagar 140 reais com o desconto do meu plano. Se fosse o Mirena, seria pelo sistema público de saúde, mas me mantive firme na minha escolha. No dia 8 de março, cheguei com uma amiga e com o DIU na mochila pro procedimento que durou cerca de meia hora. Fiz um exame de urina de gravidez de praxe, e durante a inserção a médica me explicou que ali na clínica coloca-se o DIU de cobre como contraceptivo de emergência (tipo pílula do dia seguinte) e também fornece-se pílulas pra abortos supervisionados de até 7 semanas. Depois disso, é preciso ir pro hospital para interromper a gravidez indesejada.

Queria muito estar escrevendo sobre essa experiência na minha amada São Paulo, mas essa é a realidade da saúde reprodutiva feminina no Canadá, onde vivo há pouco mais de um ano. Aqui, o aborto é legal, e virtualmente todo método anticoncepcional é de fácil acesso, sem perguntas ou julgamentos de cunho pessoal, com carinho e atenção que o profissionalismo que os profissionais de saúde se permitem. Na sala de espera da clínica, mulheres brancas, marrons, asiáticas, negras, todas ali exercendo seu direito à saúde reprodutiva, seja apenas para pegar prescrição pra anticoncepcional, pra fazer um ultrassom ou mesmo interromper uma gravidez. Mas a verdade é que jamais saberei, pois a privacidade delas foi completamente preservada. Não é lindo?

Ainda existem coisas questionáveis, como em toda democracia. Pílulas anticoncepcionais são vendidas apenas com receita médica, o que muitos criticam como algo restritivo, o que eu discordo, pois acredito que não é qualquer uma que pode tomar qualquer pílula, e uma opinião profissional é necessária. Por outro lado, entretanto, a pílula do dia seguinte (Plan B) fica do lado dos absorventes na farmácia.

Essas pequenas conquistas femininas cotidianas são reflexo de uma luta de anos dos movimentos feministas e da postura aberta ao diálogo do governo canadense. Na última década, esses avanços foram ameaçados pelo governo conservador de Stephen Harper, mas nada grave de fato chegou acontecer, graças a maturidade da democracia canadense, quase tão nova quanto a brasileira.

Após os anos de ameaça obscurantista, Justin Trudeau foi eleito dizendo-se feminista (e vai continuar dizendo, falou, até que isso não gere mais espanto) e com um gabinete composto metade por mulheres (além de outras minorias). Se isso é marketing ou não, só o tempo dirá, mas isso pouco importa. O que importa mesmo é ter uma figura pública desse porte lembrando a cada entrevista que quem decide sobre políticas públicas femininas são as mulheres.

Dito isso, é triste ver o primeiro governo de uma mulher no Brasil caminhando para um fim melancólico sobretudo em relação às políticas públicas femininas. Exceção seja feita à tipificação do crime de feminicídio que, fora as críticas ao sistema penal brasileiro, é um grande avanço ao dar um nome e direcionamento legal a uma realidade vivida pelas brasileiras.

Com o mandato ameaçado, Dilma procura o apoio de justamente dos setores religiosos conservadores, que entravam qualquer avanço e que querem impedir até que famílias de mães solteiras sejam beneficiadas por dinheiro público (leia-se: estatuto da família). As Casas da Mulher Brasileira, prometidas pela presidenta para acolher mulheres vítimas de violência, ficaram no papel. A legalização do aborto caminha pra trás com o desprezível Eduardo Cunha no comando da Câmara.

Tudo isso depois de 6 anos no governo. E não adianta culpar o Congresso, pois é cínico esperar que a maioria garanta direitos de minorias. Direto de minoria se garante por decreto. Queremos aborto legal. Queremos acesso à saúde reprodutiva focada na mulher. Onde estão os nossos direitos, Dilma?