Séries para assistir e entender o que o feminismo pode fazer por você

Feminismo aplicado na TV, e não, não estou falando de Fernanda Lima e Amor & Sexo e igualdade de sexo desenhado explicadinho na telinha (nada contra tbm). Estou falando de maratona delícia de séries incríveis que vão te fazer pensar, sem doer (talvez um pouco), sem suar (ok, talvez bastante) o que o feminismo pode fazer por você, por mim, por nós. A ideia é ir além de Girls ou Orange is The New Black. Listei quatro shows que adoro e prometo não dar spoilers, vamo que vamo.

Big Little Lies
Demorei pra assistir essas série maravilhosa da HBO, talvez por achar que o hype da série era por ter Nicole Kidman e Reese Winterspoon fazendo TV, e juntas.

O que é? A série tem um tom inicial de mistério, mas o foco mesmo é relacionamentos. Os episódios são construídos com uma mistura da história e depoimentos de personagens contando suas versões sobre um acontecimento grave não explicado, o que nos deixa bem interessados no que pode vir, mas isso é apenas um gancho secundário. As opiniões, na verdade, servem mais pra guiar o nosso olhar sobre as posturas das personagens principais, quatro mulheres tentando viver bem e dar a melhor vida possível para os seus filhos que acabaram de entrar na primeira série, em uma cidade podre de ryca na Califórnia.

Por que é feminista? As mulheres são levadas por tudo e todos a se enfrentarem e se odiarem, mas elas sempre arrumam um jeito de se ajudarem. E no fim, juro que não é spoiler, a união delas dá o caldo. Os depoimentos das pessoas mostram vários esteriótipos comuns às mulheres, como “louca”, “fofoqueira”, “neurótica”, “perfeita”, etc etc. Aos poucos, o foco do série se vira para abuso, de abuso sexual a relação abusiva, e como essas coisas tão ali, discretamente sobrevivendo nos nossos dia-a-dia. A série mostra como ações cotidianas podem virar atos de violência, e como o amor pode fazer qualquer um ignorar abusos numa relação.

O que pode fazer por você? Nos ensina sobre sororidade apesar das adversidades.

Good Girls Revolt
Meu mais novo amor, a série da Amazon tem Anna Camp e Grace Gummer entre as atrizes principais, e fala sobre as lutas por igualdade profissional em uma redação no fim dos anos 1960. A historia é uma adaptação pras telas do que aconteceu com a Newsweek.

O que é? No fim dos anos 1960, a redação da revista News of The Week (sagaz!) é dividida entre os repórteres (homens) e as pesquisadoras (mulheres). Os meninos escreviam as matérias usando todo o material (arquivos, dados e entrevistas) que as meninas reuniam. E claro, só os caras assinavam. Após um episódio de demissão da escritora Nora Ephron, repreendida porque escreveu um texto muito bom (?), as mulheres da revista aos poucos se organizam para lutar contra as regras machistas da casa.

Por que é feminista? Além da óbvia razão da premissa da história, a série mostra como patriarcado funcionada como ideologia, ali, curtindo o machismo no conceito do que é ser mulher, e qual é o ““papel natural”” (muitas aspas pra ênfase) dessa mulher na sociedade. E a série apresenta isso com e sem obviedades, mas sempre com muita classe. Mulher tá ali pra deixar a vida do homem mais fácil, ser linda e servir café. Em um dos diálogos, uma das meninas questiona se é justo os meninos assinarem as matérias sozinhos, mesmo quando eles só escreveram parte das matérias. A resposta da colega é: normal, é isso que repórter faz. Ou seja, eles tão ali pra levar o crédito. Tem momentos de crise feminina que acontecem em qualquer década, como quando um relacionamento acaba porque o cara não consegue acompanhar que a mina que ele sai não quer um relacionamento tradicional. 
Adoro que tudo isso se passa com a Segunda Onda Feminista como pano de fundo, com as mulheres indo a “reuniões de conscientização” onde elas aprendiam que mulher também e gente, com direito a igualdade no trabalho e ao prazer sexual.

O que pode fazer por você? Um dos maiores méritos da série é lembrar as bases do porque o feminismo é importante. Cenas de chauvinismo nos ajudam a dar aquele up na vontade de se educar.

I Love Dick
Essa série de nome maravilhoso é sobre o livro de mesmo nome. (sim, traduz livremente para “Eu amo Pinto”, com Pinto podendo significar o nome próprio ou, sim, pinto) O livro foi escrito em 1997 pela também maravilhosa Chris Kraus e tem um quê autobiográfico. A série e tao boa que eu assisti sete dos oito episódios em dois dias, e fiquei enrolando mais de uma semana pra enfim assistir ao ultimo e dar adeus :~(

O que é? Chris (Kathryn Hahn) é uma roteirista de talentos não testados que acompanha o marido, também escritor, de Nova York a uma cidadezinha no interior do Texas. Ele acabou de ganhar uma bolsa para se dedicar a um livro sobre o holocausto, mas os planos dela (deles?) são comprometidos quando ela desenvolve uma obsessão com Dick, um artista famoso e o patrono da bolsa que o companheiro dela usufrui.

Por que é feminista? Chris escreve cartas e mais cartas para Dick, em uma espiral obsessiva que agita a vida sexual do seu casamento. Tudo parece maravilhoso, mas ela precisa fazer com que Dick leia tudo o que ela escreveu, o que faz que ela entre em uma cruzada de exposição e rejeição publica, e muita, muita vergonha alheia. Dick não se sente confortável em ser um muso (palavra tao acostumada ao papel feminino “musa” que o dicionario não reconhece a versão masculina). A sexualidade de Chris incomoda, e todos esperam que ela mantenha as taras dela pra si mesma. As personagens secundarias também são um arraso. Fiquei obcecada (bem na vibe da série hehe) com Toby (India Menuez), uma jovem pesquisadora de historia da arte doutora em pornografia hardcore e Devon (Roberta Colindrez), que ama as cartas para o Dick e resolve fazer teatro com isso. Genial. Procurando por fotos achei esse texto mara do NYT, que fala do meu episodio favorito.

O que pode fazer por você? Lugar de mulher e onde ela quiser, e isso inclui espaço público sim e todo o tipo de sentimento que ela quiser levar pra rua, incluindo tesão.

Halt & Catch Fire
Dê uma chance pra essa serie bem nerd da AMC, disponível na Netflix. Paciência porque a serie e boa, eu juro, e a segunda temporada e ainda bem melhor. [Edit: fui avisada que o show ainda não esta disponível na Netflix Brasil.]

O que é? O show conta a historia de criação da Compaq nos anos 1980, em que dois caras se juntam para criar o próximo computador pessoal que vai revolucionar como a gente compra e usa PCs.

Por que é feminista? Adoro que quando eu jogo o nome da série no Google, aparecem vários hits de como o show é “sorrateiramente” feminista. LOL. A verdade é que apesar dos protagonistas óbvios serem o programador Gordon Clark e o vendedor Joe MacMillan, quem manda no negocio mesmo são as minas! A mulher do Gordon, Donna, e uma dona de casa que trabalha com T.I. e se mata cuidado das duas filhas enquanto o marido fica lá, xati porque os projetos dele não dão certo. Quando ele resolve fazer alguma coisa (esse é o argumento da série, então não to dando spoiler), ele contrata uma mulher pra programar as parada toda, a Cameron. Aos poucos, beeem aos poucos, as duas mostram que quem manda na parada são elas mesmo.

O que pode fazer por você? Mulher é foda mesmo, e não é vergonha nenhuma ser melhor que o seu chefe, ou o seu marido. E a desigualdade de oportunidades é ainda o maior empecilho da carreira feminina, e é ótimo que lembrem a gente disso nas telas.

Por hoje é só, galere. Queria escrever sobre Flea Bag, mas ainda acho muito polêmica pra tentar fazer três parágrafos rápidos. Não?