O EXCELENTÍSSIMO ARTISTA ERA VOSMECÊ

CARTA A L. — 21.V.16

(identidades preservadas. caso reconheça, recorra à coincidência)


L.,

Vosmecê deve concordar com o fato da cultura ser um eixo estratégico para o desenvolvimento de um país, de um povo. Pois bem.

As funções de um ministério da cultura não se restringem a distribuir dinheiro aos artistas. Esse discurso, inclusive, é o discurso dessa direita que tanto se incomoda com as conquistas de direitos das minorias. Então, eu sugiro cuidado ao engrossar esse caldo, porque, acredito, foi justamente esses pensamentos soltos que acabaram por fortalecer o golpe e dar a ele o tão referido clamor popular.

O ministério da cultura é um órgão regulamentador e propositor de políticas públicas de cultura. Essas políticas incluem atenção especial à questões de caráter fundamental para o empoderamento e fortalecimento da nossa sociedade. Cultura negra, cultura indígena, direitos das mulheres, direitos da comunidade lgbt, direitos das comunidades periféricas, atuação de artistas circenses, atuação de artistas de rua, patrimônio histórico, material e imaterial, são algumas das pautas tratadas por meio de programas e leis e de maneira bastante democrática - esse, no meu ponto de vista, principal característica de uma política pública.

O problema da não democratização das leis de incentivo à cultura, por exemplo, não está na sua estrura, pode ser intrínseco a ela, concordo, mas caracteriza-se muito mais pelo uso mercantilista que empresas deram às leis do que qualquer outra coisa ligada às suas existências. E esse uso acaba mesmo beneficiando os “grandes artistas”, muitas vezes com trabalhos de conteúdo duvidoso. Mas é justamente o caráter democrático dessas leis, veja vosmecê a contradição, que acaba levando suas aplicações a esses fins. Todos os brasileiros podem propor uso das leis de incentivo à cultura.

Por outras inúmeras razões, as quais não me cabe citar agora, há muito a ser aprimorado, muitas reformas a serem feitas, muito mais recurso a ser investido, e muito mais pessoas e territórios a serem atingidos por essas políticas. E essa deve ser nossa luta, a isso deve-se nossa organização enquanto classe para atingir essas conquistas. Sei que essas palavras passam pelo campo ideológico e, consequência disso, à utopia do que é a organização e luta coletiva para o bem comum. Mas, no fim das contas, é a nossa única ferramenta e saída.

Me incomoda, portanto, o argumento individualista de que “nada me veio do ministério da cultura”, enquanto as políticas por ele propostas, e as que ainda podem ser propostas, contribuíram, e ainda podem contribuir, para a aquisição da cidadania que queremos ver em nossa gente e o acerto de contas da dívida histórica da sociedade para com os grupos dominados, excluídos e marginalizados.

Não dá só para apoiar, ou renegar, aquilo que diretamente bate na nossa bunda. Os ganhos, ou as perdas, nos são caros e comuns. E, sem querer fazer o papel da cobradora, apenas dando um impulsozinho na tua memória, nos conhecemos trabalhando numa atividade cultural financiada com dinheiro público, diretamente viabilizado pelo ministério da cultura. Ao menos naquele mês frio de inverno, pagasse as contas, e a breja, com o famigerado recurso público distribuído ao artista. No caso, o excelentíssimo artista, era vosmecê.