PAU QUE DÁ EM MARIA, NUNCA DÁ EM JOÃO

CARTA AO P.C. — 24.X.16

(identidades preservadas. caso reconheça, recorra à coincidência)


P.C.,

Agora o negócio é com você. E vou escrever uma carta aberta, uma resposta pública mesmo.

Vou defender o que compreendo sobre o que minha muito amiga, irmã, G., te escreveu.

Talvez você não tenha a mais remota ideia, mas diante dos horrores que mulheres sofrem, é questão de sobrevivência no mundo, que elas compreendam e pratiquem o que chama-se sororidade. Mulheres fecham com mulheres e não há nada apelativo nisso. Isso não é sexista, nem sequer corresponde a uma "integridade natural feminina", sensitiva mística. Isso é proteção, meu caro. Proteção às opressões e agressões do patriarcado. É ferramenta para diminuir desigualdades e desconstruir discursos e atos machistas, que atentam a integridade (aí sim) física, e a vida, de muitas mulheres. É atalho para o empoderamento da mulher. Nesse assunto, tudo está tão intimamente relacionado - crenças e juízos de valores e comportamentos e estatísticas - tudo, que se torna imprescindível que tomemos mtos cuidados com todos os detalhes.

E, veja, no caso usado de exemplo, não falava-se simplesmente de mulheres no salão de beleza apoiando uma a outra na cor do esmalte escolhido. Podemos discordar de seus trabalhos e métodos - eu, particurlamente, temo a K. e tudo o que ela representa, desmatamentos, resistência à reforma agrária, demarcações de terras indígenas, mas falava-se das duas mulheres provavelmente mais poderosas do país naquele momento, num ambiente dominado por homens, brancos e ricos, enfrentando um golpe de estado encabeçado justamente pela organização de poder de uma delas. No mínimo, algo emblemático e bastante demonstrativo da lealdade entre mulheres no poder.

Eu fecho com quem acredito, principalmente com quem tenho encontros ideológicos. Não posso fechar com a pastora da igreja do M., por exemplo. Ela não fecharia comigo. Mas numa situação hipotética, em que questões de gênero são fundamentais para dar nome as vacas e colocá-las no seu devido lugar, e se ambas estivessem ligadas na necessidade de união para quebrar com as regras do patriarcado, passaríamos a suportar uma a outra em nome de nossa classe, a das mulheres.

Outra coisa, a D. não é burra. Pode ser péssima governante, péssima negociadora, se assim te agradar supor, mas burra ela não é. E, ao que tudo indica, não negociou seus valores. Se os tivesse feito, obviamente não teria sido golpeada.

Por fim, eu vou sim reclamar, e muito, de misoginia. Eu vou berrar, espernear, utilizando argumentos feministas (noto que há essa confusão no seu pensamento: feminismo não é sexismo!). Desonestidade intelectual a sua ao tratar os temas feminismo e misoginia com tamanho despreparo, sem qualquer empatia, de cima de seu pequeno pedestal de macho.

E não venha pra cima da gente com seus olhos fechados para a realidade: pau que dá em Maria, NUNCA dá em João.

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