Diário Alemão

Natália Veiga
Sep 3, 2018 · 2 min read

Segunda feira, 3 de setembro de 2018

Meio dia em ponto — ela fala, e pela 22 vez me pergunta o que vou almoçar. Ontem pedi num delivery de sopas, vários sabores, na tentativa de fazê-la comer alguma coisa. Inventei 3256 histórias sobre a trajetória e origem daquela sopa e o motivo de estarmos comendo, não importa, em 10 ou 15 minutos ela já esqueceria e perguntaria novamente.

Ao colocar a canja no prato, servi-la, me veio como um flash na mente, a exata sensação quente e acolhedora da sopa de abóbora que, aos 12 ou 13 anos, ela me servia, quando, após uma longa caminhada com a minha mãe, passávamos para checar se estava tudo bem, com ela e com a Biza.

Nesse momento senti melancolia, entendi pela primeira vez, o significado de melancolia. A vida é mesmo um ciclo curioso. Respirei, servi meu prato e sentei, na cadeira em frente a ela, e, após uma ou duas reclamações insistindo que já havia comido, ela pega a colher e começa a comer a sopa. Nesse momento a melancolia abre espaço para um enorme sentimento de pertencimento, quase que uma plenitude ao entender que, mesmo que dessa forma estranha, confusa, o universo estava me dando a chance que pedi. Assim, dessa forma mais Wes Anderson de todas. A fotografia e o cenário são curiosamente belos. Eu sigo observando.

Tá gostosa, bem feitinha! — Ela solta, interrompendo meu momento contemplativo, eu rio, e ela pergunta novamente o trajeto e a origem da sopa. Quase escuto o sussurro irônico do universo: Eternas oportunidades de exercitar sua capacidade de contar histórias. Talvez, o início da melhor faculdade de todas, a dos ciclos da vida.

Natália Veiga

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Escrevo mal, sei de nadas, meu português é sem vergonha e finjo que é licença poética! Na educação por vingança. Na @lonacriativa pra inventar desinvenções.